The Project Gutenberg eBook of Electra: Drama em cinco actos
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Title: Electra: Drama em cinco actos
Author: Benito Pérez Galdós
Translator: Ramalho Ortigão
Release date: September 7, 2020 [eBook #63145]
Most recently updated: October 18, 2024
Language: Portuguese
Credits: Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA: DRAMA EM CINCO ACTOS ***
PÉREZ GALDÓZ
ELECTRA
DRAMA EM CINCO ACTOS
VERSÃO PORTUGUEZA
DE
RAMALHO ORTIGÃO
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1901
Unica traducção portugueza auctorisada pelo auctor
_Porto—Imprensa Moderna_
ACTO PRIMEIRO
Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste. Á
direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação para
outras salas do palacio. Á direita, no primeiro plano, porta
dos quartos d’Electra.
SCENA I
MARQUEZ E JOSÉ
_José_
Estão no jardim... Vou dar parte.
_Marquez_
Espera lá. É esta a primeira visita que faço aos senhores de Garcia Yuste
no seu palacio novo... Deixa-me dar uma vista d’olhos... Está n’um grande
pé... Bem hajam os que tão bem empregam o seu dinheiro! Porque não é
sómente o seu estado de casa, é o bem que fazem, o generosos que são em
obras pias...
_José_
Oh! lá isso...!
_Marquez_
E tão mettidos comsigo! tanto da paz e do socego do lar!... Ainda que,
segundo cuido, ha novidade agora na familia...
_José_
Novidade? Ah! já sei... Quer o snr. Marquez referir-se...
_Marquez_
Escuta, José! Promettes fazer o que eu te peça?
_José_
Já o snr. Marquez sabe que eu me não esqueço nunca dos quatorze annos que
servi na sua casa... O snr. Marquez manda, não pergunta.
_Marquez_
Pois venho cá de proposito para conhecer essa interessante senhorita, que
os teus amos trouxeram agora d’um collegio de França...
_José_
A senhorita Electra.
_Marquez_
Podes dizer-me se os senhores estão contentes com essa nova sobrinha? É
pessôa amoravel, agradecida?
_José_
Oh! n’esse particular!... Os senhores morrem por ella... Sómente...
_Marquez_
Quê?
_José_
A menina é travessasita...
_Marquez_
A edade!
_José_
Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que se não faz uma ideia...
_Marquez_
Mas diz que é linda, que é um anjo...
_José_
Um anjo sim, se ha anjos parecidos com mafarricos... É que nos põe o sal
na moleira a todos cá de casa!
_Marquez_
Estou morto por conhecêl-a!
_José_
No jardim a encontra o snr. Marquez. É lá que passa as manhãs pondo em
redemoinho tudo.
_Marquez_
(_olhando para o jardim_) Lindo jardim, bello parque, as velhas arvores
do antigo palacio das Gravelinas...
_José_
É exacto.
_Marquez_
O grande predio, ao fundo da alameda, é tambem dos senhores de Yuste?
_José_
Tambem. Com entrada pelo jardim e pela rua. Em baixo tem o seu
laboratorio o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo, primeiro dos
trunfos de Hispanha nas mathematicas, e... na outra coisa... na...
_Marquez_
Bem sei... Chamam-lhe o _Magico prodigioso_... Conheci-o em Londres...
ainda a mulher d’elle era viva.
_José_
Morreu em fevereiro do anno passado... e deixou-lhe dois filhos, dois
amores!
_Marquez_
Ultimamente renovei com elle o meu antigo conhecimento, e, apesar de nos
não visitarmos, por certos motivos, somos muito amigos.
_José_
Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...!
_Marquez_
E outra coisa: não estão arrependidos os teus amos de terem mettido em
casa esse diabretesito?
_José_
(_receoso de que venha gente_) Eu direi a V. Ex.ª... Tenho notado... (_Vê
vir D. Urbano pelo jardim_) Ahi vem o senhor.
_Marquez_
Põe-te a andar.
SCENA II
MARQUEZ E D. URBANO
_Marquez_
(_abrindo-lhe os braços_) Querido Urbano!
_Urbano_
Marquez! ditosos olhos!...
_Marquez_
E Evarista?
_Urbano_
Bem... Sómente extranhando muito as grandes ausencias do marquez de
Ronda...
_Marquez_
Oh! você não imagina o inverno que passámos...
_Urbano_
E Virginia?
_Marquez_
Assim, assim... Sempre achacada, mas reagindo constantemente pela força
de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei.
_Urbano_
Pois ainda bem! ainda bem!... Com quê... quer que desçamos ao jardim?
_Marquez_
Vamos já! Deixe-me tomar assento, pouco a pouco, na sua casa nova...
(_Senta-se_) E conte-me lá, querido, conte-me d’essa menina encantada,
que foram buscar ao collegio.
_Urbano_
Não, não estava já no collegio. Tinha ido para Hendaya, para uns parentes
da mãe. Eu nunca fui muito da opinião de a trazer para cá. Mas Evarista
emprehendeu n’isso... Quer sondar o caracter da pequena, apurar se
d’ella se poderá fazer uma mulher em termos, ou se nos estará destinada
a vergonha de a vêr herdar as tendencias da mãe... Você sabe que era uma
prima irmã de minha mulher; e escuso de lhe lembrar os escandalos que deu
essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85.
_Marquez_
Nem me fale n’isso!
_Urbano_
Emfim, foi a ponto de que a familia, vexada, rompeu com ella de todo e
para sempre! Esta menina, agora, cujo pae se não sabe quem seja, criou-se
com a mãe até os cinco annos. Depois levaram-a para as Ursulinas de
Bayona. Lá, ou por abreviar ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome,
exquisito e novo, de Electra.
_Marquez_
Novo, propriamente, não. Á pobre mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos
nós, os intimos da casa, lhe chamavamos tambem Electra, em parte
talvez por abreviatura, e em parte porque ao pae, militar valente mas
assignaladamente desditoso na vida conjugal, tinham posto a alcunha de
_Agamemnon_.
_Urbano_
D’essa não sabia... Tambem nunca vivi com elles. Eleuteria, pela fama que
tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante...
_Marquez_
Por amor de Deus, querido Urbano, não sejamos pharisaicos... Lembre-se
que Eleuteria—a quem chamaremos _Electra I_—mudou de vida, ahi por 88...
_Urbano_
E não deu pouco que falar esse arrependimento tambem. Lá foi morrer
a S. João da Penitencia, em 95, regenerada, abominando a monstruosa
libertinagem da sua vida...
_Marquez_
(_como quem lhe reprehende o rigorismo_) Deus lhe perdoou...
_Urbano_
Sim, sim... perdão, esquecimento...
_Marquez_
E tratam então agora de tentear _Electra II_ a vêr se inclinará para bem
ou se lhe dará para mal... Que resultado vão dando as provas?
_Urbano_
Resultados obscuros, contradictorios, variaveis de dia para dia, de
hora para hora. Ha momentos em que ella nos revela qualidades sublimes,
mal encobertas pela sua innocencia; outros, em que nos apparece como a
creatura mais doida a quem Deus deu licença de vir ao mundo. Tão depressa
encanta pela sua candura angelica como aterra a gente pelas diabolicas
subtilezas que desfia da sua propria ignorancia.
_Marquez_
Natural desequilibrio da edade, excesso de imaginação, talvez. É esperta?
_Urbano_
Como a electricidade em pessoa, mysteriosa, repentista, de grande tino.
Destroe, transtorna, perturba, illumina.
_Marquez_
(_levantando-se_) Fervo em curiosidade. Vamos vêl-a.
SCENA III
MARQUEZ, URBANO, CUESTA, pelo fundo
_Cuesta_
(_entra com mostras de cançaço, tira do bolso a carteira de negocios, e
dirige-se á mesa_) Marquez... Tudo bom por cá?
_Marquez_
Oh! grande Cuesta! que nos conta o nosso incançavel agente?
_Cuesta_
(_senta-se. Revela um padecimento de coração_) O incançavel... começa a
cançar.
_Urbano_
Homem! e que me dizes da alta d’hontem no Amortisavel?
_Cuesta_
Veio de Paris com dois inteiros.
_Urbano_
Fizeste a nossa liquidação?
_Marquez_
E a minha?
_Cuesta_
Estou com isso... (_Tira papeis da carteira e escreve a lapis_) N’um
instante saberão as cifras exactas. Tirou-se todo o partido que se podia
tirar da conversão.
_Marquez_
Naturalmente... Sendo o typo de emissão dos novos valores 79,50... tendo
nós comprado por preço muito baixo o papel recolhido...
_Urbano_
Naturalmente...
_Cuesta_
O resultado foi enorme.
_Marquez_
Querido Urbano, esta facilidade com que se enriquece é positivo que dá o
amor da vida e o enthusiasmo da belleza humana. Vamos para o jardim.
_Urbano_
(_a Cuesta_) Vens?
_Cuesta_
Preciso de dez minutos de silencio para pôr em ordem os meus apontamentos.
_Urbano_
Deixamos-te em socego. Não queres nada?
_Cuesta_
(_abstrahido nas suas contas_) Não... quero dizer... Sim: manda-me vir um
copo de agoa. Estou abrasado.
_Urbano_
Immediatamente. (_Sae com o Marquez para o jardim_)
SCENA IV
CUESTA E PATROS
_Cuesta_
(_corrigindo as suas notas_) Ah! cá está o erro. Aos de Yuste toca... um
milhão e seiscentas mil pezetas. Ao marquez de Ronda, duzentas e vinte
e duas mil... Temos que descontar as doze mil e tanto, equivalentes aos
nove mil francos... (_Entra Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac.
Espera que Cuesta termine a sua conta_)
_Patros_
Ponho aqui, D. Leonardo?
_Cuesta_
Põe e espera um instante... Um milhão e oitocentos... com os seiscentos
e dez... fazem... claro! está certo. Bem bom! bem bom!... Com que então,
Patros... (_tira do bolso dinheiro, que lhe dá_) Toma lá!
_Patros_
Muito obrigado!
_Cuesta_
E já te aviso que espero de ti um favôr...
_Patros_
Dirá, D. Leonardo.
_Cuesta_
Pois, minha amiga... (_remechendo um caramello_) Escuta...
_Patros_
Não quer cognac?... Se vem cançado, a agoa só pode fazer-lhe mal.
_Cuesta_
Sim: deita um poucochito... Pois o que eu quereria...—Não vás pôr
malicia no que a não tem: sentido!—o que eu quereria era falar alguns
momentos, a sós, com a senhorita Electra. Conhecendo-me como me conheces,
comprehenderás de certo que o meu fim é o mais honrado e o mais digno...
Mas sempre t’o digo para te tirar todo o escrupulo... (_Recolhe os
papeis_) Antes que venha alguem, poderás dizer-me que occasião e que
logar será melhor?
_Patros_
Para dizer duas palavras á senhorita Electra... (_meditando_) terá de ser
então quando os senhores estiverem com o procurador... Eu verei.
_Cuesta_
Se pudesse ser hoje, melhor.
_Patros_
Ainda cá volta hoje?
_Cuesta_
Volto. Avisa-me.
_Patros_
Esteja certo. (_Recolhe o serviço e sae_)
SCENA V
CUESTA E PANTOJA, que entra em scena meditabundo, abstraído,
todo vestido de preto
_Cuesta_
Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como vamos?
_Pantoja_
(_suspira_) Vivendo, amigo, que é o mesmo que dizer: esperando.
_Cuesta_
Esperando melhor vida...
_Pantoja_
Padecendo n’esta o que Deus determine para merecer a outra.
_Cuesta_
E de saude que tal?
_Pantoja_
Mal e bem. Mal, porque me affligem desgostos e achaques; bem, porque me
apraz a dôr, e me regosija o soffrimento. (_Inquieto, e como dominado por
uma ideia fixa, olha para o jardim_)
_Cuesta_
Que ascetico vem hoje!
_Pantoja_
Olhe que cabecinha de vento a d’aquella Electra...! Lá vae ella de
corrida com os pequenos do porteiro, com os dois filhos do Maximo, e
ainda com filhos dos visinhos. Quando a deixam n’aquellas travessuras de
creança é que ella é feliz.
_Cuesta_
Adoravel creaturinha! Que Deus a fade bem, para ser uma mulher como se
quer!
_Pantoja_
D’aquella graciosa boneca, d’aquella voluvel menina facilmente se poderia
tirar um anjo; da mulher que ella ha de ser, não sei.
_Cuesta_
Não o entendo bem, amigo Pantoja.
_Pantoja_
Entendo-me eu... Olhe, olhe como brincam... (_Assustado_) Deus de
misericordia! quem é que vae com ella?... Não é o marquez de Ronda?
_Cuesta_
Elle mesmo.
_Pantoja_
Que corrupto homem! Tenorio da geração passada não se decide a jubilar-se
para não dar um desgosto a Satanaz!
_Cuesta_
Para que mais uma vez se possa dizer que não ha paraizo sem serpente...
_Pantoja_
Para isso não! serpente já tinhamos. (_Passeia nervoso e displicente pela
sala_)
_Cuesta_
E diga-me, passando a outra coisa: teve já noticia do dinheirão que lhes
trouxe?
_Pantoja_
(_sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra ideia que não
formúla_) Ah! sim, já... Ganhou-se muito.
_Cuesta_
Evarista completará agora a sua grande obra religiosa.
_Pantoja_
(_maquinalmente_) Sim.
_Cuesta_
E poderá o amigo Pantoja consagrar muito maiores recursos a S. José da
Penitencia.
_Pantoja_
Sim... (_Voltando á sua ideia fixa_) Serpente já tinhamos... Que dizia,
amigo Cuesta?
_Cuesta_
Dizia eu...
_Pantoja_
Desculpe interrompel-o... Sabe se sempre é certo que o nosso visinho
de defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor e quasi thaumaturgo,
projecte mudar de casa?
_Cuesta_
Quem? Maximo? Acho que sim... Parece que em Bilbau e em Barcelona acolhem
com enthusiasmo os seus admiraveis estudos para novas applicações da
electricidade; e lhe offerecem todos os capitaes que elle queira para
proseguir nas experiencias que encetou.
_Pantoja_
(_meditativo_) Oh! capitaes eu lh’os daria tambem, comtanto que...
SCENA VI
PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ, que veem do
jardim
_Evarista_
(_soltando o braço do Marquez_) Bons dias, Cuesta. Pantoja, quanto estimo
vêl-o! (_Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente a mão.
A senhora de Yuste senta-se á direita; o Marquez em pé ao lado d’ella. Os
outros agrupam-se á esquerda falando de negocios._)
_Marquez_
(_reatando com Evarista uma conversação interrompida_) Por este andar a
minha boa amiga não sómente passa á Historia mas passa a figurar tambem
no _Anno Christão_.
_Evarista_
Não me gabe por coisas em que não ha merecimento nenhum, Marquez...
Não temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza. Temos em cada anno uma
herança. Sem trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o excesso dos
nossos rendimentos, habilmente manejados pelo amigo Cuesta, capitalisa-se
sem darmos por isso, e cria novas fontes de dinheiro. Se compramos uma
quinta, a subida dos productos triplica n’esse mesmo anno o valor da
terra. Se ficamos senhores de um baldio inteiramente sáfaro, acontece
que no subsolo se descobre um jazigo immenso de carvão, de ferro ou de
chumbo... Que quer dizer tudo isto?
_Marquez_
Quer dizer—acho eu—que quando Deus multiplica tantas riquezas sobre quem
nem as deseja nem as estima, bem claramente elle está indicando que as
concede para que sejam empregadas em servil-o.
_Evarista_
É claro. Interpretando-o tambem assim, eu apresso-me a cumprir a vontade
de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio hoje trazer apenas me passará
pelas mãos, e com elle completarei a somma de sete milhões consagrados
á obra do Santo Patrocinio. E mais farei para que a casa e o collegio
de Madrid tenham o decoro e a magnificencia adequada a um tão grande
instituto. Desenvolveremos tambem as obras do collegio de Valencia e do
de Cadiz...
_Pantoja_
(_passando para o grupo da direita_) Sem esquecer, minha senhora, a casa
dos altos estudos, a sua escola de instrucção superior, que virá a ser o
santuario da verdadeira Sciencia.
_Evarista_
Bem sabe que é esse o meu constante pensamento.
_Urbano_
(_passando tambem para a direita_) N’isso se pensa n’esta casa de noite e
de dia.
_Marquez_
Admiravel, minha querida amiga, admiravel! (_Levanta-se_)
_Evarista_
(_a Cuesta, que igualmente tem passado para a direita_) E agora, amigo
Leonardo, que vamos fazer?
_Cuesta_
(_sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe novas operações_) Por
hoje nos limitaremos a metter algum dinheiro...
(_Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista_)
_Marquez_
(_passeando na scena com Urbano_) Ha de permittir, querido Urbano, que,
proclamando os merecimentos sublimes da senhora de Garcia Yuste, eu não
deite em sacco roto os nossos: falo da minha mulher e de mim. Saberá que
Virginia já fez a caridade de transferir para as Escravas de Jesus um bom
terço da nossa fortuna...
_Urbano_
Das mais solidas da Andaluzia.
_Marquez_
E por nosso testamento deixamos tudo a essas senhoras, menos a parte
destinada a certos encargos e aos parentes pobres.
_Urbano_
Ora vejam lá!... Mas, segundo me constou, o Marquez aqui ha annos parece
que não via com enthusiasmo illimitado que a piedade da marqueza, minha
senhora, se tornasse tão angelicamente dispendiosa...
_Marquez_
É certo... mas converti-me. Abjurei todos os meus erros. A minha mulher
catechisou-me.
_Urbano_
Exactissimamente o que me succedeu a mim. Evarista virou-me com o forro
de santo para fóra.
_Marquez_
Para conservar a paz e estabelecer a harmonia conjugal, principiei
por contemporisar, continuei contemporisando... Pois, meu amiguinho,
contemporisação foi ella que, a pouco e pouco, cheguei ao que se vê: Sou
um escravo... das _Escravas de Jesus_! E não me arrependo. Vivo n’uma
placidez beatifica, curado de todas as inquietações da minha vida. E
estou já agora a convencer-me de uma coisa: é que a minha mulher não
sómente salva a sua alma, mas que me salva a minha tambem!
_Urbano_
Pois é o que eu egualmente recommendo cá em casa: que não se esqueçam,
podendo tambem ser, de me salvar a mim!
_Marquez_
Nós, homens, não temos iniciativa para nada.
_Urbano_
Absolutamente para nada!
_Marquez_
Verdade seja que ás vezes até o que se chama respirar nos prohibem!
_Urbano_
Prohibida a respiração... Conheço!
_Marquez_
Mas vivemos em paz.
_Urbano_
E servimos a Deus sem esforço nenhum. Isso é que é.
_Marquez_
As nossas mulheres lá vão adeante de nós, por esse bemdito caminho da
eternidade, pela gloria fóra; e podemos estar socegados, que nos não
deixam na estrada.
_Urbano_
Pois! é a sua obrigação.
_Evarista_
Urbano?...
_Urbano_
(_acudindo pressuroso_) Menina...
_Evarista_
Põe-te á disposição de Cuesta para a liquidação e para a entrega aos
padres.
_Urbano_
Hoje mesmo. (_Cuesta levanta-se_)
_Evarista_
E outra coisa: faze-me favor de chegar ao jardim, e dizer a Electra que
tem já tres horas de brincadeira.
_Pantoja_
(_imperioso_) Que se venha embora. É brincar de mais.
_Urbano_
Vou já. (_Vendo vir Electra_) Ella ahi vem.
SCENA VII
ELECTRA, atraz d’ella MAXIMO
_Electra_
(_Entra a correr e a rir, perseguida por Maximo, a quem ganhou na
corrida. O seu riso é de medo infantil_) Bem feito, que não me pilhas!...
Enraivece-te, brutamontes!
_Maximo_
(_traz em uma das mãos varios objectos que indicará, e na outra um ramo
de choupo, que esgrime como um chicote_) Eu te digo se te pilho ou não,
selvagem!
_Electra_
(_sem fazer caso dos que estão em scena, corre a casa com infantil
ligeiresa e vae refugiar-se no vestido de D. Evarista, ajoelhando-se-lhe
aos pés e abraçando-a pela cinta_) Estou salva!... Tia, ponha-o fóra!
_Maximo_
Ah! já foges! já tens medo, minha menina!
_Evarista_
Mas, filha da minh’alma! quando é que terás modos de senhora? E tu,
Maximo, és tão creança como ella.
_Maximo_
(_mostrando as coisas que traz_) Vejam o que esse demonico me fez.
Quebrou-me estes dois tubos... E olhem o estado em que poz estes papeis,
contendo calculos que representam um trabalho enorme. (_Mostra os papeis
suspendendo-os de alto_) D’este fez uma passarola; este deu-o aos
pequenos para pintarem elephantes, burros e um couraçado a atirar balas a
um castello...
_Pantoja_
Então ella foi ao laboratorio?
_Maximo_
E revolucionou os pequenos... Revolveram-me tudo!
_Pantoja_
(_com severidade_) Isso, menina...
_Evarista_
Electra!
_Marquez_
(_enthusiasmado_) Electra! Encanto de menina grande! Bemditas
travessuras!
_Electra_
Eu não lhe quebrei os tubos. Não ha tal! Foi Pepito que lhe fez esse
obsequio. Os papeis, sim senhor; fui eu que peguei n’elles, imaginando
que não serviam para nada com os hediondos esgaravunhos que tinham.
_Cuesta_
Basta! haja pazes!
_Maximo_
Pois vá lá, por esta vez... (_a Electra_) Perdôo-te. Deves-me a
vida... Toma lá. (_Entrega-lhe a chibata; Electra recebe-a, e bate-lhe
brandamente_)
_Electra_
Toma agora tu! Esta é pelo que me disseste. (_Batendo-lhe com mais
força_) Esta agora pelo que não quizeste dizer-me.
_Maximo_
Disse-te tudo.
_Pantoja_
Moderação! juizo!
_Evarista_
Que te disse elle?
_Maximo_
Disse-lhe verdades uteis... Que aprenda por si mesma o muito que ainda
ignora; que abra bem abertos esses grandes olhos e que os estenda pela
vida humana, para que veja que nem tudo é alegria, que ha tambem no mundo
deveres, desenganos e sacrificios...
_Electra_
Chega o lobishomem! (_Occupa o centro da scena, onde todos a rodeiam,
menos Pantoja, que se colloca ao lado d’Evarista_)
_Cuesta_
Nem tudo applausos!
_Urbano_
A severidade é precisa.
_Maximo_
Em severidade ninguem me ganha... Dize: é ou não é verdade que sou
severo, e que tu m’o agradeces? Confessa que me agradeces!
_Electra_
(_batendo-lhe de leve_) Peste de sábio! Se isto fôsse um açoite
verdadeiro, ainda com mais alma te batia.
_Marquez_
(_risonho e encarinhado_) Electra, veja se me bate em mim tambem...
Faça-me essa esmola!
_Electra_
Em si não, porque não tenho confiança... Só se fôr muito de levesinho...
assim... assim... assim... (_Toca levemente no Marquez, em Cuesta e em
Urbano_)
_Evarista_
Melhor seria que tocasses piano para esses senhores ouvirem.
_Maximo_
Quê, se não estuda nada! Só uma coisa se póde comparar á sua grande
disposição artistica, é o seu espantoso desapego de todas as artes.
_Cuesta_
Que nos mostre as aquarellas e os desenhos. O Marquez vae vêr.
(_Juntam-se todos em volta da meza, menos Evarista e Pantoja, que
conversam áparte_)
_Electra_
Ahi sim senhor! (_Procurando a pasta de desenhos entre os livros e as
revistas que estão na mesa_) Agora se vae vêr se sou ou se não sou uma
artista!
_Maximo_
Forte gabarola!
_Electra_
(_desatando as fitas da pasta_) Pois sim! tu a desfazeres e eu a
augmentar-me veremos quem póde mais. Ora aqui está, e pasmem! (_Mostrando
os desenhos_) Que teem que dizer a estes portentosos esboços de paizagem,
de figura, de animaes? a estas vaccas que parecem pessoas? a estas
naturezas mortas que parecem vivas? a estes rochedos que só lhes falta
fallarem?! (_Todos se extasiam no exame dos desenhos, que passam de mão
em mão_)
_Evarista_
(_tendo desviado a attenção do grupo do centro, entabolou conversa intima
com Pantoja_) Tem razão, Salvador. Quando é que a não tem? Agora, no caso
de Electra, o seu argumento é um clarão que nos illumina a todos.
_Pantoja_
Não vá crêr que seja a minha pobre intelligencia que projecta essa
luz. Ella é apenas o resplendor de um fogo intenso que tenho em mim: a
vontade! Por meio d’esta força, que devo a Deus, esmaguei o meu orgulho e
emendei os meus erros.
_Evarista_
Depois da confidencia que hontem á noite me fez é indiscutivel para mim o
seu direito de intervir na educação d’essa cabeça de vento...
_Pantoja_
Para lhe ensinar o caminho da vida, para lhe mostrar o alto fito da nossa
misera existencia na terra...
_Evarista_
E esse direito que indubitavelmente lhe cabe, implica deveres
inilludiveis...
_Pantoja_
Quanto lhe agradeço que tão perfeitaimente o comprehenda, minha senhora
e amiga da minha alma! Eu receava que a minha confidencia d’hontem,
historia funesta que reveste de negro os melhores annos da minha vida,
me tivesse feito decaír da sua estima!
_Evarista_
Não, meu amigo. Quem é que dentro da humanidade se póde considerar
liberto da fraqueza humana? Em si o peccador regenerou-se, castigando
a vida com as mortificações do arrependimento, e dignificando-a com a
pratica da virtude.
_Pantoja_
A divina tristeza, o amor da solidão, o convicto desprezo de todas as
vaidades do mundo foram a salvação da minha alma. Pois bem: eu não
estaria completamente purificado perante a minha consciencia se n’esta
occasião não interviesse nos negocios da terra para salvar dos seus
perigos a angelica innocencia d’essa menina, fatalmente destinada, se
lhe não acudirmos, a precipitar-se pelo caminho em que se perdeu a sua
desgraçada mãe.
_Evarista_
A minha opinião é que fale com ella...
_Pantoja_
A sós.
_Evarista_
Assim o entendo: a sós. Faça-lhe comprehender, o mais delicadamente que
possa, a especie de auctoridade que tem...
_Pantoja_
É todo o meu desejo esse... (_Continuam em voz baixa_)
_Electra_
(_no grupo do centro disputando com Maximo_) Deixa-te de sentenças, que
tu d’isto não sabes nada! Então não querem vêr com a que elle se sae?
que o passaro parece um velho pensativo, e que a mulher faz lembrar uma
lagosta desmaiada...
_Marquez_
Não senhor... Eu acho que está muito bem feito!
_Maximo_
Ás vezes tambem lhe dá para ahi! Quando menos pensa saem-lhe coisas
prodigiosamente exactas.
_Cuesta_
É certo que estas velhas arvores, atravez das quaes se descobre uma
triste faixa de mar, ao longe...
_Electra_
A minha especialidade aposto que ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois
são os troncos velhos, são os carcomidos muros em ruina. É singular que
só pinto bem aquillo que não conheço: a tristeza, o passado, o môrto! A
grande luminosidade radeante da alegria, da mocidade, não me sae! (_Com
pena e assombro_) Sou uma grande artista para tudo que não sou eu!
_Urbano_
Tem graça.
_Cuesta_
Esta menina é optima!
_Marquez_
É scintillante!
_Maximo_
Esperemos que lhe venha a reflexão tambem... a seu tempo...
_Electra_
(_zombando de Maximo_) A reflexão! a gravidade! o tempo que ha de vir!...
É a sombra que sempre me deita este cipreste!... Ora fica sabendo que eu
hei de ter tudo isso quando me dér para ahi... e mais do que tu, meu
sabichão!
_Maximo_
Veremos... veremos isso quando te chegar a vez!
_Pantoja_
(_que não tem dado attenção ao que se passa no grupo_) Não posso
occultar-lhe, minha senhora, que me desagrada muito a familiaridade de
Electra com o sobrinho do seu marido.
_Evarista_
Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto sempre tenha você em conta que este
Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente de bem e raramente serio...
_Pantoja_
Bem sei, minha amiga... Mas nos desfiladeiros da confiança excessiva
resvalam os mais solidos e os mais firmes; uma triste experiencia m’o
ensinou a mim!
_Electra_
(_no grupo do centro_) Eu hei de tomar todo o juizo que eu quizer quando
elle me fôr preciso. Ninguem se põe serio emquanto Deus não manda.
Ninguem diz ai ai senão quando alguma coisa lhe doe.
_Marquez_
Lá isso é verdade!
_Cuesta_
Um dia aprenderá a ser pratica.
_Electra_
De certo que sim! No dia em que venha Deus e me diga: «Menina: aqui tens
a dôr, a duvida, a responsabilidade, o dever...»
_Maximo_
E breve o dirá!...
_Electra_
Para que eu lhe responda!
_Evarista_
Electra, minha filha, não disparates.
_Electra_
Tia, é este Maximo... (_passa para o lado de Evarista_)
_Urbano_
O Maximo tem razão...
_Cuesta_
Certamente que sim. (_Cuesta e Urbano passam tambem para o lado de
Evarista e de Pantoja, ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez_)
_Maximo_
Então, Marquez, qual é o resultado da sua primeira observação?
_Marquez_
Encantou-me a rapariga. Vejo que você não exagerava nada.
_Maximo_
E por baixo do fascinante encanto d’essa innocencia não pôde a sua
penetração descobrir alguma coisa...
_Marquez_
Ah! sim... belleza moral, juizo pratico... Ainda não tive tempo para
isso... Continúo a observar...
_Maximo_
É que eu—você sabe—consagrado ao estudo desde muito moço, mal conheço o
mundo, e os caracteres humanos são para mim uma escripta em que apenas
soletro.
_Marquez_
Pois esse, meu amigo, é o unico dos livros em que eu leio de cadeira.
_Maximo_
Quer vir a minha casa?
_Marquez_
Com muito gosto. É possivel que minha mulher me reprehenda se souber que
eu visito uma officina de electrotechnia, uma escandalosa fabrica de luz.
Mas não será de uma severidade que eu não aguente. Posso aventurar-me...
Voltarei depois aqui, e com o pretexto de admirar a menina ao piano
falarei com ella e proseguirei os meus estudos.
_Maximo_
(_alto_) Vem, Marquez?
_Urbano_
Então assim nos deixam?
_Marquez_
Vamos vêr o laboratorio do nosso amigo.
_Evarista_
Marquez, estou muito sentida, mas muito, pela sua longa ausencia. Quererá
descarregar-se de tantos peccados velhos almoçando hoje comnosco? É o seu
castigo...
_Marquez_
Acceito-o em desconto da minha culpa e beijo a mão que tão docemente me
corrige.
_Evarista_
Maximo, tu vens tambem.
_Maximo_
Se me deixarem livre, virei, de certo.
_Electra_
Não venhas, homem de Deus, não venhas! (_Com alegria que não dissimula_)
Vens? Dize que sim! (_Corrigindo-se_) Não, não: dize que não.
_Maximo_
Descança que te não livras de mim! Á força has de ganhar juizo...
_Electra_
E has de perdêl-o tu, caturra velho! (_Segue-o com a vista até que sae.
Saem Maximo e o Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo_)
SCENA VIII
ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA, CUESTA E JOSÉ
_José_
(_annunciando_) A senhora Superiora de S. José da Penitencia.
_Pantoja_
Ah! a nossa bôa soror Barbara da Cruz...
_Evarista_
Que entre para aqui. (_Levanta-se_) Espera! Iremos recebêl-a ao salão.
_Pantoja_
Feliz opportunidade! escuso de ir ao convento.
_Evarista_
Electra, estudar. (_Indica-lhe a sala proxima_)
_Cuesta_
(_despedindo-se_) Eu saio e volto logo.
_Evarista_
Adeus.
_Cuesta_
(_áparte, referindo-se a Electra_) Deixam-a só?
_Pantoja_
(_a Electra_) Menina! Cultive com esmero a grande arte sagrada. Applique
todo o seu talento ao estudo de Bach... para que se compenetre do
admiravel estylo religioso. (_Saem todos menos Electra_)
SCENA IX
ELECTRA, pouco depois CUESTA
_Electra_
(_entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos e recolhe-os nas
suas pastas_) Bach... para que me compenetre do estylo religioso... é
bom!... É bom, e é engraçado. (_Canta_)
_Cuesta_
(_entra pelo fundo, recatando-se_) Só...!
_Electra_
(_canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta_) Oh! D. Leonardo...!
Cuidei que tinha sahido...
_Cuesta_
(_com timidez_) Sahi mas voltei, minha querida menina. Preciso muito de
lhe falar.
_Electra_
(_um poucochinho assustada_) A mim!
_Cuesta_
É um assumpto delicado, extremamente delicado... (_Com fadiga e
difficuldade em respirar_) Perdoe-me. Padeço do coração... não posso
estar de pé. (_Electra chega-lhe uma cadeira. Senta-se_) Tão delicado
este assumpto, que não sei por onde comece...
_Electra_
Deus meu, que é?
_Cuesta_
(_animando-se_) Electra, eu conheci sua mãe.
_Electra_
Ah! a minha mãe foi bem desgraçada...
_Cuesta_
Que entende a menina por ser desgraçada?
_Electra_
Eu... entendo que viveu entre pessoas que a não deixaram ser tão bôa como
ella queria.
_Cuesta_
Ahi está uma profunda verdade que, sem querer, a menina disse...
Lembra-se da sua mãe?... Pensa algumas vezes n’ella?...
_Electra_
A minha mãe é para mim uma recordação, vaga sim, mas de uma doçura
incomparavel... uma querida imagem que nunca me abandona... Guardo-a viva
no meu coração, que não é mais que uma grande memoria, no fundo da qual a
procuram sempre os meus olhos anciosos de vêl-a. Minha pobre mamãsinha!
(_Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira_) Diga-me, D. Leonardo, quando
você conheceu minha mãe era eu muito pequenina...
_Cuesta_
Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas para a vêr rir... o seu riso
parecia-me o encanto da natureza, a alegria do universo.
_Electra_
Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque eu sahi tão doida, tão travêssa,
tão desparafusada... você alguma vez me teria pegado ao collo...
_Cuesta_
Innumeraveis vezes.
_Electra_
(_sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas_) E eu não lhe puxava
pelos bigodes?
_Cuesta_
Ás vezes com tanta força que me fazia doer.
_Electra_
E de certo então me batia nas mãos...
_Cuesta_
Devagarinho, sim.
_Electra_
Pois ha de crêr que talvez que ainda me doam tambem?
_Cuesta_
(_impaciente por entrar em materia_) Mas vamos ao caso... E antes de mais
nada a advirto, minha querida Electra, que é muito reservado o que lhe
vou dizer... para nós ambos unicamente.
_Electra_
Mette-me medo...
_Cuesta_
Não, não é uma coisa que assuste... Veja em mim a menina um amigo, o
melhor de todos os seus amigos; veja n’este acto o interesse mais puro e
o mais elevado sentimento...
_Electra_
(_confusa_) Sim, não duvído, mas...
_Cuesta_
Eis aqui porque dou este passo... Com quanto não seja ainda muito velho,
não me sinto com corda para longo tempo de vida. Viuvo ha vinte annos,
não tenho mais familia que a minha filha Pilar, já casada e longe.
Estou quasi só n’este mundo, tenho o pé no estribo para marchar para o
outro... E a minha solidão, ai! parece empurrar-me e dar-me pressa...
(_Com grande difficuldade de expressão_) Mas antes de partir... (_Pausa_)
Electra, quanto pensei em si antes de a trazerem para Madrid!... E
desde que chegou, Deus meu, senti—como lh’o direi?... Imagine o mais
profundo, o mais puro affecto de um coração, envolvido nos gritos de uma
consciencia...
_Electra_
(_aturdida_) Que grave coisa deve ser essa, a consciencia! A minha é, por
ora, como um menino que dorme no seu berço.
_Cuesta_
(_com tristeza_) A minha é velha e memoriosa. Nem dorme, nem me deixa
dormir, assignalando-me sempre, a grandes brados, os erros graves da
minha vida.
_Electra_
Erros graves na vida... você, tão bom...
_Cuesta_
Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador... Emfim deixemos os erros,
tratemos dos seus resultados. Eu não quero de nenhum modo que a menina
se possa achar ao desabrigo. Não tem fortuna propria, e é duvidoso que a
protecção de Urbano e d’Evarista seja persistente e constante. Como havia
de consentir eu que um dia se visse pobre, desamparada?
_Electra_
(_com penosa lucta entre o seu conhecimento e a sua innocencia_) Eu não
sei se o entendo... não sei se devo entendel-o.
_Cuesta_
O mais apropositado será que me entenda, e não o diga; que acceite
a minha protecção, e a não agradeça. Vão juntos o meu dever e o seu
direito. Por culpa minha, Electra, não se quebrará o fio que une cada
creatura na terra, com as creaturas que foram e com as que ainda vivem...
E se hoje me determino a resolver este caso é porque... porque ha uns
tempos me assalta o terror das mortes subitas. Meu pae e meu irmão
morreram como fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora da
familia, sinto-a bem aqui: (_indicando o coração_) é um triste relogio
que me conta as horas e os dias. Não posso adiar mais... Que me não
colha a morte deixando abandonada no mundo a sua preciosa existencia! E
concluo aqui, pedindo-lhe que tenha como assegurado na vida um bem estar
modesto...
_Electra_
Um bem estar modesto... Eu?... para mim?
_Cuesta_
O sufficiente para viver n’uma decorosa independencia...
_Electra_
(_confusa_) Mas eu, que merecimentos tenho?... Perdôe-me, se não posso
acabar de me convencer...
_Cuesta_
Mais tarde o convencimento virá.
_Electra_
E por que não fala n’isso a meus tios?...
_Cuesta_
(_preoccupado_) Porque... A seu tempo o saberão. Por agora ninguem mais
deve ter conhecimento da resolução que tomei.
_Electra_
Mas...
_Cuesta_
(_commovido, levantando-se_) E agora, Electra, não quererá mal a este
pobre enfermo, que tem contados os seus dias?
_Electra_
Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão doce para mim o querer bem! Mas não
fale em morrer, D. Leonardo.
_Cuesta_
Completamente me consola saber que chorará talvez por mim...
_Electra_
Não faça com que eu chore já...
_Cuesta_
(_apressando a sahida para vencer a sua commoção_) E agora, minha querida
filha, adeus.
_Electra_
Adeus... (_retendo-o_) E que nome lhe devo dar?
_Cuesta_
O de amigo me basta. Adeus. (_Arranca-se para saír pelo fundo. Electra
segue-o com a vista até que desappareça_)
SCENA X
ELECTRA E O MARQUEZ
_Electra_
(_meditativa_) Meu Deus, que devo pensar? Aquellas meias palavras parece
que ainda me dizem mais do que palavras completas. Mãesinha da minha
alma!... (_O marquez entra pelo jardim e adeanta-se devagar_) Ah! O snr.
Marquez!
_Marquez_
Assustei-a?
_Electra_
Não: surprehendeu-me apenas... Se vem para me ouvir tocar, aviso-o de que
perdeu a viagem. Eu não toco hoje.
_Marquez_
Tanto melhor: assim fallaremos... Mal lhe sou apresentado entro em cheio
na admiração das suas prendas, e, conhecida uma parte do seu caracter,
vivamente desejo conhecel-a mais... Vae estranhar esta curiosidade, e
julgar-me importuno...
_Electra_
Não acho. Eu sou curiosa tambem, e tanto que desde já me permitto
fazer-lhe uma pergunta: é amigo de Maximo?
_Marquez_
Estimo-o e admiro-o muito... Coisa rara não é verdade?
_Electra_
Coisa naturalissima, me parece.
_Marquez_
Tão moça como é, talvez que se não dê bem conta das causas da minha
amisade com o _magico prodigioso_... Vamos a vêr se me faço entender.
_Electra_
Explique-m’o bem.
_Marquez_
Senhorita, a sociedade que eu frequento, o circulo da minha propria
familia e os habitos da minha casa produzem em mim um effeito de
asphyxia, de lento ameaço apopletico. Quasi que sem dar por isso, por
simples impulso instinctivo de conservação, lanço-me de vez em quando á
procura de um pouco d’ar respiravel. Os meus olhos, velhos e nostalgicos,
voltam-se então avidamente para a sciencia e para a natureza... Maximo,
para mim, é um sanatorio.
_Electra_
Quer-me parecer que vou começando a entendêl-o, e á sua doença de
confinado, com faltas d’ar e de vida...
_Marquez_
Prova de que raciocina. Devo tambem dizer-lhe que tenho por esse homem um
interesse immenso.
_Electra_
Estima-o devidamente, admira-o pelas suas altas qualidades...
_Marquez_
E lastimo-o pelo seu infortunio.
_Electra_
(_surprehendida_) Maximo, desafortunado?
_Marquez_
Que desdita maior que a da solidão em que elle vive? A viuvez prematura
submergiu-o nos estudos mais profundos e mais absorventes, que podem
comprometter-lhe a saude e a vida. É um dos meus receios.
_Electra_
Tem os filhos, que o acompanham e a consolam... O Marquez viu-os hoje...
Que lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer agora cinco annos, é um
prodigio de intelligencia. O pequenito, de dois annos, é o mais engraçado
sujeitinho de todo o mundo. Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, por
elles, de ser creada de meninos.
_Marquez_
O pobre Maximo, aferrado aos seus estudos, não pode attendêl-os como
devia ser.
_Electra_
É o que eu digo tambem.
_Marquez_
Claro! Maximo do que precisa é de uma mulher... Aqui principiam as
difficuldades e as dúvidas. Por mais que olhe e que procure, não vejo,
não encontro a mulher digna de repartir a sua vida com a do grande homem.
_Electra_
Não a encontra, está visto, porque a não ha, não a ha. Para Maximo
deve-se arranjar uma mulher, principalmente, de muito juizo...
_Marquez_
Primeiro que tudo, isso: de muito juizo.
_Electra_
O contrario de mim, que, não tenho nenhum, nenhum, nenhum!
_Marquez_
Não direi eu isso...
_Electra_
Que, ainda assim, quando lhe digo tolices e lhe chamo brutamontes, tonto
e sabichão, não vá o Marquez pensar que o digo a sério. É brincadeira!
_Marquez_
Tambem me queria parecer que não era uma convicção philosophica.
_Electra_
Brincadeira descabida, talvez, porque elle é seriissimo... E sobre esse
ponto gostaria de ouvir o seu conselho: acha que eu deva tornar-me séria?
_Marquez_
Nunca! Cada creatura é como Deus a quiz fazer. Ninguem precisa de ser
serio para ser bom.
_Electra_
Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha pensado isso mesmo!
SCENA XI
ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA pelo fundo
_Pantoja_
(_do fundo, áparte_) E atreve-se a pôr os olhos peçonhentos n’uma tal
flôr de candura, este libertino, velho e incorrigivel! (_Adeanta-se
lentamente_)
_Marquez_
(_dando por Pantoja, áparte_) Cae-nos o apagador em cima. Apaguemo-nos!
_Electra_
O snr. Marquez tinha vindo para me ouvir tocar, mas eu estou muito
estupida hoje. Ficou para outra vez.
_Marquez_
O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven é a minha paixão. Como me
tinham dito que Electra o interpreta bem, esperava ouvir-lhe a _Sonata
pathetica_ ou o _Clair de lune_... Puzemo-nos a conversar, e, visto que
não é occasião agora...
_Pantoja_
(_com desabrimento_) A hora do estudo acabou.
_Marquez_
(_recobrando o seu papel de sociedade_) Outro dia será! Virginia e eu,
meu presado snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse honrar-nos com
os seus conselhos relativamente ao _Recolhimento das Escravas de Jesus_.
_Pantoja_
Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza, e fallaremos...
_Marquez_
Nas _Escravas_ a encontrará o meu illustre amigo toda a santissima
tarde... E como creio que sou demais... (_Movimento de retirar-se_)
_Electra_
O snr. Marquez não estorva.
_Marquez_
Vou-me com a musica... até o laboratorio de Maximo.
_Pantoja_
Vá, vá, que ha de gostar!
_Marquez_
Até ao almoço, meu muito respeitavel amigo.
_Pantoja_
Guarde-o Deus. (_Sae o marquez pelo jardim_)
SCENA XII
ELECTRA E PANTOJA
_Pantoja_
(_vivamente_) Que é que elle lhe dizia? que lhe estava contando esse
depravador de innocencias?
_Electra_
Nada: historias vagas, anecdotas para rir...
_Pantoja_
As taes historias! Desconfie sempre das anecdotas jocosas, e dos
narradores amenos, que escondem entre suavidades e fragrancias de jasmins
uma ponta envenenada de estilete... Estou a achal-a perplexa, enleada,
abstrahida, quasi medrosa, como quem acaba de sentir pela macia relva
matisada de lirios um roçagar de reptil.
_Electra_
Ah! não.
_Pantoja_
Essa inquietação resultante das conversações perturbadoras ha de
acalmal-a a minha palavra serena e benefica.
_Electra_
Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e dá-me prazer ouvil-o.
_Pantoja_
(_indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos_) Minha presada filha, vou
dar-lhe a explicação da intensa ternura que me inspira... Terá dado por
isso?
_Electra_
Tenho.
_Pantoja_
Tal explicação equivale á revelação de um segredo...
_Electra_
(_muito assustada_) Deus do ceu! estou a tremer...
_Pantoja_
Socegue, minha filha... E ouça primeiro a parte d’esta confidencia mais
dolorosa para mim. Fui muito mau, Electra.
_Electra_
Como assim, com a fama de santidade que tem!
_Pantoja_
Fui mau—digo-lh’o eu—em certa occasião da minha vida. (_Suspirando_) Já
lá vão alguns annos.
_Electra_
(_vivamente_) Quantos? Poderei eu lembrar-me ainda do tempo da sua
maldade, snr. de Pantoja?
_Pantoja_
Não pode. Quando eu me depravei, quando me afundi no lodaçal do peccado,
não tinha a menina ainda nascido...
_Electra_
Mas nasci afinal...
_Pantoja_
(_depois de uma pausa_) É certo.
_Electra_
Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie essa historia...
_Pantoja_
A sua perturbação me indica que devemos desviar os olhos do passado. A
sua condição presente socega-me.
_Electra_
Porquê?
_Pantoja_
Porque ha de ter um amparo, um arrimo para toda a vida. Nada mais
ineffavel para mim do que a fortuna de velar pelo destino de uma creatura
tão bella e tão nobre! Quero consagrar-me a defendel-a de todo o mal,
a guardal-a, a acalental-a, a dirigil-a, para que sempre se conserve
incolume, intemerata e pura; para que nunca lhe toque nem a mais tenue
sombra, nem o mais afastado respiro do mal. É hoje uma menina que parece
um anjo. Não me conformo com que unicamente o pareça; quero que para mim
o seja.
_Electra_
(_friamente_) Que eu seja um anjo de sua composição e propriedade
sua?... E parece-lhe que se deva considerar como um rasgo de caridade
extraordinaria e sublime esse fervoroso desejo que mostra de ter assim,
um anjo de seu?
_Pantoja_
Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens o direito de ser amparada
por mim; eu tenho o dever de amparar-te.
_Electra_
Tamanha confiança... tão severa auctoridade...
_Pantoja_
A minha auctoridade provém do meu entranhado affecto, assim como do calor
do sol provém a força da terra. A minha protecção é um producto da minha
consciencia.
_Electra_
(_levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja, áparte_) Virgem
mãe santissima! dois protectores! e um que precisa de opprimir para
proteger! (_alto_) Olhe: eu admiro-o e respeito muito as suas virtudes.
Emquanto á sua auctoridade—perdoe-me o atrevimento de lh’o dizer—não a
comprehendo bem claramente, e parece-me que só a minha tia é que devo
submissão e obediencia.
_Pantoja_
Vem a ser a mesma coisa. Evarista faz-me a honra de me consultar em tudo.
Obedecer-lhe a ella é submetter-te a mim.
_Electra_
Então tambem a tia me quer para anjo d’ella? ainda por cima de eu já
estar para anjo do snr. de Pantoja?!
_Pantoja_
Anjo de todos, de Deus principalmente. Convence-te, filha da minha alma,
que vieste a bôas mãos, e que só te cumpre deixar-te guiar na virtude e
na purificação.
_Electra_
(_com displicencia_) Pois, se querem purificar-me, purifiquem-me... Mas
estão bem certos de que eu seja impura e má?
_Pantoja_
Poderias vir a sel-o. Melhor se vence o mal prevenindo que remediando.
_Electra_
Pobre de mim! (_Levantando os olhos em extase, suspira. Pausa_)
_Pantoja_
Porque suspiras assim?
_Electra_
Deixe-me aliviar o meu triste coração. Pesam-me demais em cima d’elle as
consciencias dos outros.
SCENA XIII
ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA, pelo fundo
_Evarista_
Amigo Pantoja, a Madre Barbara da Cruz espera-o para se despedir e
receber as suas ordens.
_Pantoja_
Ah! não me lembrava... Vou immediatamente. (_Áparte a Evarista_) Falamos.
Vigie. Acautelemo-nos! (_Antes de saír Pantoja, pelo fundo, entram o
Marquez e Maximo pela direita_)
SCENA XIV
ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO
_Marquez_
Tardamos?
_Evarista_
Não. Estiveram no laboratorio?... (_Formam-se dois grupos: Electra e
Maximo á esquerda; Evarista e o Marquez á direita._)
_Marquez_
Lá estivemos. É um prodigio este homem... (_Segue falando no que viu_)
_Electra_
(_suspirando_) Sim, Maximo, preciso de consultar-te sobre um caso grave.
_Maximo_
(_com vivo interesse_) Conta depressa!
_Electra_
(_receosa olhando para o outro grupo_) Impossivel agora.
_Maximo_
Quando então?
_Electra_
Não sei... Não sei quando t’o poderei dizer... Não se resume em quatro
palavras...
_Maximo_
Pobre rapariga!... O que eu te predisse... Chegam as seriedades da vida,
os deveres, as amarguras...
_Electra_
Talvez.
_Maximo_
(_olhando-a fito, com grande interesse_) Na expressão da tua physionomia
ha um veu de tristeza e um estremecimento de susto... Desconheço-te.
_Electra_
Querem annular o que eu sou, e reduzir-me a outra coisa... a uma coisa
angelical e celeste, que não sei o que é!
_Maximo_
(_vivamente_) Por Deus, não consintas isso! Defende-te, Electra.
_Electra_
Que me aconselhas?
_Maximo_
(_sem vacillar_) A independencia.
_Electra_
A independencia!
_Maximo_
Sim, a emancipação... N’uma palavra: Insurge-te!
_Electra_
Queres dizer que faça quanto me vier á cabeça, que danse, que pule, que
corra pelo parque emquanto me appeteça, que entre na tua casa como em
paiz conquistado, que conspire com os teus pequenos, que fuja com elles
para o jardim, para longe, para onde eu quizer?...
_Maximo_
Tudo!
_Electra_
Olha o que dizes!?...
_Maximo_
Digo-te isto.
_Electra_
Mas é o contrario que me tens recommendado sempre!
_Maximo_
(_olhando-a fixamente_) Na tua cara, no vinco dos teus sobrolhos, na
tremura da tua bocca, eu vejo que estão radicalmente transformadas as
condições da tua vida. Tu agora tens medo.
_Electra_
(_medrosa_) Tenho, sim.
_Maximo_
Tu... (_Hesitando no verbo que ha de empregar. Vae a dizer amar, mas não
ousa_) Tu queres ardentemente que alguma coisa succeda...
_Electra_
(_com effusão_) Quero. (_Pausa_) E dizes-me tu que contra o medo... a
insubordinação.
_Maximo_
Sim: solta livremente todos os teus impulsos para que quanto ha em ti se
manifeste, e se saiba quem tu és.
_Electra_
O que eu sou? Queres conhecer...
_Maximo_
A tua alma...
_Electra_
Os meus segredos...
_Maximo_
A tua alma... N’ella se comprehende tudo.
_Electra_
(_notando que Evaristo a observa_) Basta... Olham para nós.
SCENA XV
OS MESMOS, URBANO E PANTOJA, pelo fundo
_Urbano_
Almoça-se?
_Pantoja_
(_a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo_) Então assim a deixa
só com Mephistopheles?
_Evarista_
Não tenha sustos, Pantoja.
_Marquez_
(_rindo_) Não tem de que os ter. Esse Mephistopheles é um santo. (_Dá o
braço a Evarista_)
_Pantoja_
(_imperiosamente, pegando na mão de Electra para a conduzir_) Commigo!
(_Electra, andando com Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo_)
_Maximo_
(_olhando para Electra e para Pantoja_) Comtigo?... Havemos de vêr com
quem! (_Maximo e Urbano são os ultimos que saem_)
FIM DO PRIMEIRO ACTO
ACTO SEGUNDO
Scenario do primeiro acto
SCENA I
EVARISTA, URBANO, á banca, despachando negocios, BALBINA, que
serve á snr.ª de Yuste uma taça de caldo
_Urbano_
(_dispondo-se a escrever_) Que é que se diz ao reitor do Patrocinio?
_Evarista_
O que se combinou: approvamos a planta, e acceitamos o orçamento. Depois
nos entenderemos com o empreiteiro.
_Urbano_
Já sabes a quanto monta a obra... (_Lendo n’um apontamento_) Trezentas e
vinte e duas mil pezetas...
_Evarista_
Bem. Ainda nos sobeja dinheiro para a continuação do Soccorro. (_A
Balbina, que recolhe a taça_) Não te esqueças do que te incumbi.
_Balbina_
Continúo vigiando, como a senhora determinou. Mas este recreio a que
a menina agora se entrega não me parece de cuidado. Tantas cartas de
namorados juntas são carteio de mais. A menina, emquanto a mim, para o
que puxa não é para a tolice, é para a risota.
_Evarista_
Mas quem traz todas essas cartas que ella recebe?
_Balbina_
Isso não sei... Mas ando de pedra no sapato com a Patros.
_Evarista_
Espreita-as, e informa-me.
_Balbina_
Fica ao meu cuidado, deixe estar! (_retira-se Balbina_)
SCENA II
OS MESMOS E MAXIMO, apressado, com plantas e papeis
_Maximo_
Estórvo?
_Evarista_
Não, filho, podes entrar.
_Maximo_
São dois minutos, tia.
_Urbano_
Vens do ministerio?
_Maximo_
Venho da conferencia com os bilbaínos. Tenho hoje um dia de prova
tremenda... Immenso que conferir, immenso que falar, immenso que correr,
e, para me não faltar mais nada, a casa toda revirada com o debaixo para
cima!
_Evarista_
Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina que despediste as creadas...
_Maximo_
Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as na rua. Estou com o ordenança e
com a ama. Que lindo arranjo, hein?
_Evarista_
Vem comer cá.
_Maximo_
Comer cá é bom de dizer. A tia fala bem! E os pequenos com quem ficam? Se
os trago põem-lhe a cabeça em agoa, desarranjam-lhe tudo...
_Evarista_
Não tragas. Eu adoro as creanças. Mas têl-as commigo, não. Revolvem tudo,
sujam tudo! corridas, risadas, cantatas, berratas, guinchos, patadas
medonhas no chão! fazem-me doida. E mêdo que caiam, que se mólhem, que as
arranhem os gatos, que rachem as cabeças, que esburaquem os olhos uns dos
outros. Nada... Não quero responsabilidades.
_Maximo_
Eu o que queria é que a tia me mandasse uma cosinheira.
_Evarista_
Manda-se-te para lá a Henriqueta. Urbano, toma nota.
_Maximo_
Bom. (_Dispondo-se a partir_)
_Evarista_
Olha lá! os teus negocios parece que vão bem... Já sabes o que te tenho
dito: Se o _magico prodigioso_ precisar de dinheiro para a implantação
dos seus inventos, não tem mais do que dizel-o...
_Maximo_
Obrigado, tia... Tenho á minha disposição quanto dinheiro queira... Assim
eu tivesse uma creatura que me soubesse fazer sôpa!
_Urbano_
Esse senhor dentro de poucos annos ha de estar muito mais rico do que nós.
_Maximo_
Isso bem pode ser que sim.
_Urbano_
Obra do seu talento.
_Maximo_
(_com modestia_) Não: do trabalho, da perseverança, da paciencia...
_Evarista_
Nem me digas! Trabalhas monstruosamente.
_Maximo_
Quanto é preciso que trabalhe, por obrigação, por consolação, por prazer,
e, a final, por enthusiasmo adquirido tambem.
_Urbano_
Passa a monomania isso. É uma borracheira de estudo.
_Evarista_
(_grave_) Não: é a ambição, a maldita ambição, que a tantos fascina e a
tantos deita a perder.
_Maximo_
Ambição legitima e indispensavel á humanidade. Imagine a tia...
_Evarista_
(_cortando-lhe a palavra_) É a ancia das riquezas, para saciar com ellas
a avidez do goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente quereis, e para
isso vos consumis, sacrificando o estomago, o cerebro, o coração e a
propria alma, sem vos lembrardes da inanidade das coisas da terra e da
brevidade da vida. Rapidamente nos vamos, e tudo cá fica.
_Maximo_
(_impaciente por sahir_) Tudo, menos eu, que me safo já.
SCENA III
OS MESMOS E JOSÉ
_José_
(_annunciando_) O snr. marquez de Ronda.
_Maximo_
(_detendo-se_) Esperarei já agora para o vêr.
_Evarista_
(_recolhendo os papeis_) Não manda Deus que trabalhemos hoje.
_Urbano_
Adivinho ao que vem.
_Evarista_
Que entre, José, que entre! (_José sae_)
_Maximo_
Vem convidal-os para a inauguração da nova _Irmandade da Escravidão_
fundada por Virginia. Disse-m’o hontem á noite.
_Evarista_
Bem sei... Então é hoje?
SCENA IV
EVARISTA, URBANO, MAXIMO E O MARQUEZ
_Marquez_
(_saudando com affabilidade_) Querida amiga... Urbano... (_A Maximo_)
Olá! não esperava encontrar o magico...
_Maximo_
O magico diz-lhe adeus e some-se.
_Marquez_
Um momento. (_Retendo-o_)
_Evarista_
Sim, Marquez: iremos.
_Marquez_
Já sabem?
_Urbano_
A que horas?
_Marquez_
Ás cinco em ponto. (_A Maximo_) A si não lhe digo porque sei que não tem
tempo.
_Maximo_
Desgraçadamente. Segue-se então que o não espero hoje.
_Marquez_
Como, se temos essa festa rija de religião e de mundanismo! mas lá vou á
noite.
_Evarista_
(_levemente zombeteira_) Já cá se tem notado, com muito regosijo é claro,
a frequencia das visitas do Marquez á caverna do nigromante.
_Maximo_
O Marquez dá-me muita honra com a sua amizade e com o interesse que toma
pelos meus estudos.
_Marquez_
Veio-me agora o delirio das maquinas e dos phenomenos electricos...
Caturrices de velho!
_Urbano_
(_a Maximo_) Parabens pelo discipulo.
_Evarista_
Deus sabe... (_Maliciosa_) Deus sabe quem será o mestre e quem o alumno!
_Marquez_
A respeito do mestre, sinto que elle esteja presente porque isso me priva
de applicar aos seus meritos todas as mordeduras que a inveja me inspira.
_Evarista_
Retira-te, Maximo; vamos dizer mal de ti.
_Maximo_
Repaste-se a má lingua! Adeusinho todos. Adeus, tia.
_Evarista_
Vae com Nossa Senhora!
_Marquez_
(_a Maximo que sae_) Até á noite, se me deixarem. (_A Evarista_)
Extraordinario homem! Sempre o admirei muito, mas agora que tenho
apreciado mais de perto todas as suas qualidades, sustento que não ha
outro no mundo como este seu sobrinho.
_Evarista_
No terreno scientifico.
_Marquez_
Em todos os terrenos, senhora de Yuste. Pois quê?!...
_Evarista_
De certo que como intelligencia...
_Marquez_
(_com enthusiasmo_) Como intelligencia, como caracter, como coração, como
tudo... Quem é que é melhor?
_Evarista_
(_sem querer empenhar-se n’uma discussão delicada_) Bem, bem, Marquez...
(_Variando de tom_) É então ás cinco, disse...?
_Marquez_
Em ponto. Contamos tambem com Electra.
_Evarista_
Não sei se a leve...
_Marquez_
Ora essa! Tenho incumbencia especialissima de conseguir a presença da
senhorita Electra n’esta solemnidade, e já prometti que sim. Virginia
deseja muito conhecêl-a.
_Urbano_
Á vista d’isso...
_Marquez_
Não me deixem ficar mal!
_Evarista_
Bem: conte com ella.
_Marquez_
Teremos muita gente, toda a nossa roda...
_Urbano_
Oh! vae estar brilhante com certeza.
_Marquez_
Com que então, até já. Tenho de ir a casa de Otumba, e passarei por cá
na volta. (_Ouve-se a voz de Electra pela esquerda, chalrando e rindo
alegremente. O marquez pára a escutal-a_)
SCENA V
OS MESMOS E ELECTRA
_Electra_
Pois sim, sim... rica, minha riquinha! mais um beijo... Que doida que és!
que doida que sou! mas entendemo-nos ambas. (_Apparece pela esquerda com
uma grande e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada_)
_Evarista_
Que vem a ser isto, rapariga?
_Marquez_
Não lhe ralhe.
_Electra_
Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa, contamo-nos coisas.
_Urbano_
(_ao Marquez_) Anda desatinada hoje.
_Electra_
(_afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros olham_) Que linda que
és, Lulu! Mas elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz seria o meu amor
com elle e comtigo!
_Marquez_
Sempre folgazã, pelo que vejo...
_Evarista_
Pelo contrario: desde hontem n’uma tristeza que nos dá cuidado.
_Marquez_
Tristeza? idealidade antes.
_Evarista_
E, agora, está vendo...
_Marquez_
(_carinhoso, dirigindo-se para ella_) Rica menina!
_Electra_
(_approximando a cara da boneca da do marquez_) Vamos, Mademoiselle, não
se me faça môna: dê um beijinho a este senhor. (_Antes que o marquez
beije a boneca dá-lhe um leve carolo com a cabeça de Lulu_)
_Marquez_
A Lulu não beija: a Lulu marra. (_Acariciando o queixinho de Electra_)
Por isso gósto mais da sua amiguinha do que d’ella.
_Electra_
De miôlo póde crêr que tanto tem uma como outra.
_Urbano_
Mas que conversas tu com a boneca?
_Electra_
Desafógo com ella, conto-lhe as minhas penas.
_Evarista_
Penas, tu?
_Electra_
Penas eu, sim, pois quê?... E quando nos vê muito caladas ambas é porque
nos estão lembrando as nossas coisas passadas...
_Marquez_
Ah! se a interessa o passado já é um signal de que pensa pela sua
cabecinha.
_Evarista_
E que coisas passadas são essas que dizes?
_Electra_
Digo do tempo em que nasci. (_Com gravidade_) O dia em que eu vim ao
mundo foi um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se aqui alguem de
como foi esse dia?
_Evarista_
Filha, que tontices que dizes! E não tens vergonha de que o snr. Marquez
te veja tão adoidada?
_Electra_
Creia, tia, que não ha doidos tão doidos, nem creanças tão creanças, que
não tenham sua razão para dizer o que dizem e para fazer o que fazem.
_Marquez_
Muito bem pensado.
_Evarista_
Qual é então a tua razão para esses brinquedos tão fóra da tua edade?
_Electra_
(_olhando para o marquez, que sorri ao seu lado_) Isso não posso contar
agora.
_Marquez_
Quer dizer que me retire.
_Evarista_
Electra!
_Marquez_
Eu ia já despedir-me... com bem pena de que as minhas occupações me
privem de convivencia tão interessante. Adeus, senhorita; volto ás cinco
para a levar commigo.
_Electra_
A mim!
_Evarista_
Sim; vamos á inauguração das _Escravas_.
_Electra_
E eu tambem?
_Evarista_
Podes-te ir vestindo.
_Electra_
(_assustada_) Ha de estar muita gente... A gente mette-me medo. Gósto
mais de ficar só.
_Marquez_
Estaremos em familia. E com isto me despégo.
_Evarista_
Até logo, Marquez.
_Marquez_
(_a Electra_) Menina, ás cinco; aprendámos a ser pontuaes. (_Sae pelo
fundo com Urbano_)
SCENA VI
EVARISTA E ELECTRA
_Evarista_
Explicarás agora a extranha maluquice em que andas.
_Electra_
Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida... como direi?... um problema...
_Evarista_
Problemas, tu!
_Electra_
Exactamente, no plural, problemas... porque é de mais d’um que se trata.
_Evarista_
Valha-te Nossa Senhora!
_Electra_
E quero vêr se m’os resolve...
_Evarista_
Quem?
_Electra_
Uma pessôa que já não vive.
_Evarista_
Que dizes?
_Electra_
Minha mãe. Não se afflija... Minha mãe pode-me dizer o que eu pretendo...
e aconselhar-me. A tia não acredita que as pessôas do outro mundo podem
vir a este? (_Gesto de incredulidade de Evarista_) Não acredita. Acredito
eu. Acredito porque o tenho visto. Eu tenho visto minha mãe...
_Evarista_
Virgem Maria! como tens essa cabeça!
_Electra_
... Quando era muito pequenina, assim, d’este tamanho...
_Evarista_
Nas Ursulinas de Bayona?
_Electra_
Sim... Minha mãe apparecia-me.
_Evarista_
Em sonhos, naturalmente.
_Electra_
Não, não: estando eu acordada, tão bem acordada como estou agora.
(_Colloca a boneca n’uma cadeira_)
_Evarista_
Pensa no que dizes, Electra...
_Electra_
Quando eu estava só, sósinha, triste ou doente; quando alguem me
lastimava dando-me a perceber a desairosa situação que eu tinha no mundo,
a minha mãe vinha, e consolava-me. Primeiro via-a imperfeitamente,
confusa, como vaporosa, a parecer diluir-se nas coisas distantes, nas
coisas proximas. Adeantava-se, n’uma claridade que tremeluzia... Depois,
não bulia mais; era uma fórma quieta, uma serena imagem triste... E
eu não podia então duvidar de que a tinha ali... Era minha mãe... Das
primeiras vezes via-a em traje elegante de grande dama... Um dia,
por fim, appareceu-me de habito e escapulario de monja. O seu rosto
envolvido nas toucas brancas, e o seu corpo coberto pela estamenha
pendente tinham uma magestade de belleza que não póde imaginar quem a não
viu.
_Evarista_
Tu deliras, minha pobre filha!
_Electra_
Junto de mim abria os braços como se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma
voz dôce, mas longinqua e recondita... não sei como lh’o explique... Eu
perguntava-lhe coisas, e ella respondia-me... (_maior incredulidade de
Evarista_) A tia não acredita?
_Evarista_
Vae dizendo.
_Electra_
Nas Ursulinas tinha uma bella boneca, a que eu chamava tambem Lulu...
Veja a tia que mysterio este!... Sempre que eu andava pela horta, ao
cahir da tarde, só, levando ao colo a minha boneca—tão melancolica eu
como ella—olhando muito para o ceu, era certa, segura, infallivel, a
visão de minha mãe... primeiro entre as arvores, como enformada no ôco
das folhagens; depois, desenhando-se de luz, e caminhando para mim,
vagarosamente, por entre os troncos escuros...
_Evarista_
E em mais crescida, quando vivias em Hendaya... tambem?...
_Electra_
Nos primeiros tempos não... Então já eu brincava com bonecas vivas: os
dois pequerruchinhos da minha prima Rosalia, menina e menino, que nunca
se separavam de mim, e me adoravam, como eu a elles. De noite, na solidão
do nosso quarto, com os meninos dormidinhos, como elles aqui... e eu
aqui (_indica o logar dos dois leitos parallelos_) por entre as duas
caminhas brancas a minha mãe passava, meiga, silenciosa, aeria, sem pisar
o chão... E debruçava-se para mim...
_Evarista_
Cala-te, por Deus, que até me fazes medo... Mas depois que foste mais
crescida... agora—digamos—acabaram essas visões...
_Electra_
Nunca mais as tive desde que deixei de viver com bonecas e com meninos.
É por isso que eu trato de voltar á edade da innocencia, e de me fazer
creança pequena outra vez, a vêr se, tornando a ser o que fui, voltará
tambem minha mãe a vêr-me, como d’antes... Para que falemos, e me
responda ao que lhe quero perguntar... e me dê conselho...
_Evarista_
E que dúvidas são as tuas, que assim precisas...
_Electra_
(_pondo os olhos no chão_) Dúvidas?... coisas que a gente não sabe, e
quer saber.
_Evarista_
Tolice! Que tão grave caso vem a ser esse para que precises de consulta e
de conselho?...
_Electra_
Cá uma coisa... (_Vacilla, está quasi a dizêl-o_)
_Evarista_
O quê? dize.
_Electra_
Uma coisa... (_Com timidez infantil dando voltas á boneca e sem se
atrever a revelar o seu segredo_) Uma certa coisa...
_Evarista_
(_severa e affectuosa_) Ih! que intoleravel que estás, com tanta
creancice! (_Tira-lhe a boneca_) Que estupida e ao mesmo tempo que
atilada que tu és! Tão depressa te mostras um prodigio de intelligencia
e de graça como parece que não passas de maluca... Andam ás bulhas com a
tua alma cherubins e demonios. Temos que intervir para acabar com essa
lucta e dar em Satanaz muitos açoites, ainda que algum te caia em ti e
te dôa um poucochito... (_Beija-a_) Vamos! juizo. Precisas de te occupar
n’alguma coisa, de distrahir essa cabeça... Não te esqueça de que é ás
cinco a festa... Vae-te arranjar, anda...
_Electra_
Sim, tia.
_Evarista_
Faltam tres quartos.
_Electra_
Vou apromptar-me.
_Evarista_
E poucas brincadeiras... cuidado! (_Sae pelo fundo levando a boneca
pendida, suspensa por um braço_)
SCENA VII
ELECTRA E PATROS
_Electra_
(_olhando para a boneca_) Pobre Lulu! como te levam á dependura!
(_Imitando a postura da boneca e apalpando o seu proprio braço dolorido_)
Que dôr que vaes ter, coitada, no hombro desengonçado! (_Senta-se
meditabunda_) E o outro á minha espera... Como foi triste a separação!
como elle chorava, estendendo-me os bracinhos!... e eu que lhe prometti
voltar...
_Patros_
(_assomando cautelosa pela esquerda_) Senhorita, senhorita...
_Electra_
Entra.
_Patros_
(_avançando com precaução_) Não está ninguem?
_Electra_
Estamos sós.
_Patros_
Não se pilha outra occasião assim, menina! Ou agora ou nunca.
_Electra_
Vens de lá?
_Patros_
Agora mesmo... Muitos senhores que dizem numeros... milhões, _bilhões_ e
_quatrilhões_... E lá dentro, ninguem.
_Electra_
(_vacillando_) Atrevo-me?
_Patros_
(_decidida_) Atreva-se, menina.
_Electra_
Nossa Senhora do Carmo, protegei-me! (_Dirige-se á sahida que dá para
o jardim. Pára assustada_) Espera. Não será melhor sahirmos pelo outro
lado? Pode estar a tia á janella da casa de jantar...
_Patros_
Pode, pode! Demos a volta por aqui. (_Pela esquerda_)
_Electra_
Sim, por aqui... Estou a tremer toda... de valentia! e de medo. Ávante!
(_Saem a correr pela esquerda_)
SCENA VIII
URBANO E JOSÉ, que entram pelo fundo ao tempo a que saem as duas
_Urbano_
Quem vae ali?
_José_
É a Patros.
_Urbano_
Então que temos?... conta lá.
_José_
São já cinco os que fazem olho á menina: cinco vistos por mim. Fóra os
que não vi.
_Urbano_
E quê? rondam a casa?
_José_
Dois pela manhã, dois de tarde, e o mais pequenitate de todos, de sol a
sol.
_Urbano_
Tens notado se ha communicação entre a janella do quarto da senhorita
Electra e a rua por meio de cesto pendente ou de cordão telephonico?
_José_
Não vi nada d’isso. Mas cá eu, se fôsse os senhores, mudava a menina para
os quartos d’acolá. (_Á esquerda_)
_Urbano_
E algum d’esses meninos não se coará para dentro do jardim?
_José_
Isso sim! Não que elles teem espinhaço e querem-o para mais d’uma vez.
_Urbano_
Bem: vae vigiando sempre. (_Entra Cuesta pelo fundo_)
SCENA IX
URBANO E CUESTA, com papeis e cartas
_Urbano_
Ora graças a Deus, Leonardo!
_Cuesta_
Já te tinha dito que não vinha de manhã. (_A José, dando-lhe uma carta_)
Isto para registar. Logo irão mais cartas. (_Sae José_)
_Urbano_
(_pegando n’um papel que Cuesta lhe entrega_) Que vem a ser isto?
_Cuesta_
O recibo das cem mil e tantas pesetas... assigna-me agora um talão de
sessenta e sete mil...
_Urbano_
Para a remessa para Roma...
_Cuesta_
Isso mesmo. E Evarista?
_Urbano_
A vestir-se.
_Cuesta_
Já sei que vaes á inauguração das _Escravas_ e que tambem vae Electra.
_Urbano_
Essa pequena, positivamente, não promette coisa boa. Está cada vez mais
caprichosa e mais leviana...
_Cuesta_
(_vivamente_) Sem maldade!
_Urbano_
Mas com symptomas d’isso. Evarista, que é a cautella e a prudencia em
pessoa, anda a pensar em submettel-a a um regimen sanitario em S. José da
Penitencia.
_Cuesta_
Has de me permittir que discorde inteiramente d’esse alvitre. Tu dirás
que quem me manda a mim...
_Urbano_
Pelo contrario: como amigo da casa muito estimo que dês opinião e
conselho.
_Cuesta_
Isso de arrastar para a vida claustral uma rapariga que não denota
manifesta vocação de piedade, é grave... E não devereis extranhar que
porventura alguem se opponha...
_Urbano_
Quem se ha de oppôr?
_Cuesta_
Que sei eu! alguem... Na vida d’esta menina ha, por emquanto, um factor
desconhecido... Um bello dia poderá succeder... não direi que succeda...
Um bello dia, quando puxeis pela corda com mais força, poderá vir uma voz
que diga: «Alto lá, senhores de Yuste!»
_Urbano_
E nós responderemos: «Querido snr. factor desconhecido, aqui tem a
menina, com o que nos livra d’uma tutella difficil e incommoda.»
_Cuesta_
(_senta-se com muita fadiga_) Isto, Urbano, é apenas uma supposição
minha... é um modo de fallar...
_Urbano_
Não te sentes bem? Queres tomar alguma coisa?
_Cuesta_
Não... Este maldito coração recusa-se a ser dirigido pela vontade...
_Urbano_
Descansa... Queres-te tu deitar?
_Cuesta_
Pois não sabes o que tenho que fazer? (_Tirando papeis do bolso_) Para
já, duas carta urgentes, que teem de partir hoje.
_Urbano_
Escreve-as aqui. (_Fazendo um logar á meza, e retirando livros e papeis_)
_Cuesta_
Está dito... installo-me ahi.
_Urbano_
Eu estou atarefadissimo tambem. Tenho voltas que dar...
_Cuesta_
Não penses mais em mim. (_Escreve_)
_Urbano_
Desculpa. Evarista não tarda ahi.
_Cuesta_
(_sem olhar_) Até logo... (_Sae Urbano pelo fundo_)
SCENA X
CUESTA, ELECTRA E PATROS (Assomam as duas á porta da esquerda
como para reconhecer o terreno)
_Electra_
Cuidado, Patros... Por aqui é difficil trazêl-o.
_Patros_
(_reconhecendo Cuesta, que vê de costas_) D. Leonardo!
_Electra_
Chut!... O mais seguro é deixal-o no teu quarto até á noite. Que massada
a tal inauguração!
_Cuesta_
(_volta-se ao ouvir vozes_) Ah! Electra...
_Electra_
Importunamos, D. Leonardo?...
_Cuesta_
Não, minha amiguinha. Quer fazer-me o favor de esperar um pouquinho...
que termine uma carta? Tenho que lhe dizer.
_Electra_
Aqui me tem. (_Áparte a Patros_) Que sécca! (_Alto_) Vinhamos unicamente
buscar um papel e um lapiz para umas contas. (_Tira da meza um lapiz
e papel. Áparte a Patros_) Cuida bem d’elle... Que amor que elle está
adormecido! Com o seu focinhinho côr de rosa e as mãos sujas, com as
unhitas pretas de andar a escarvar na terra... Dá vontade de o engulir!
_Patros_
Com os lindos pés gordos, e a espessa carapinha d’ouro que elle tem...
_Electra_
(_com effusão de carinho_) Dá volta á cabeça da gente. Olha bem por elle,
Patros; vê lá!...
_Patros_
Levo-lhe agora um bôlo.
_Electra_
Não dou licença. Prohibo rigorosamente os bôlos. Para lhe sujarem o
estomago!... Leva-lhe uma sopinha...
_Patros_
Mas como hei de eu arranjar sopinha?
_Electra_
Tens razão... Ah! pede na cosinha uma taça de leite para mim.
_Patros_
Isso mesmo! E dou-lh’a quando acordar.
_Electra_
Toma lá tambem o papel e o lapiz para elle fazer os seus rabiscos... É a
coisa de que mais gosta... Depois, á noite, na primeira occasião, mette-o
no meu quarto, para dormir comigo.
_Cuesta_
(_fechando a carta_) Acabei.
_Electra_
Perdoe um momento, D. Leonardo. (_Áparte a Patros_) Não o deixes nem um
momento... Muito cuidadinho! Se D. Leonardo me não prender muito, ainda
irei dar-lhe um beijo antes de me vestir.
_Cuesta_
Patros, estas cartas para o correio!
_Patros_
Vão-se levar já.
SCENA XI
CUESTA E ELECTRA
_Cuesta_
(_pegando-lhe nas mãos_) Venha cá, sua grande extravagante... quanto me
alegra vêl-a!
_Electra_
É muito meu amigo, D. Leonardo? Não imagina como eu gosto de que me
estimem!
_Cuesta_
Mas precisamos tambem de ter mais um poucochinho de proposito e d’assento
n’essa cabecinha... É bom que não haja nada que se nos dizer... E a mim
contaram-me—pêtas já se vê!—que fervilham os namorados...
_Electra_
Ah! Sim, eu já lhes perdi a conta! Mas não gosto senão d’um.
_Cuesta_
D’um! E quem é?
_Electra_
Isso... lá me parece perguntar de mais...
_Cuesta_
Eu conheço-o?
_Electra_
Se conhece!
_Cuesta_
Fez-lhe a sua declaração d’uma maneira decente?
_Electra_
Não me fez declaração nenhuma, nem me disse nada... até agora.
_Cuesta_
E a menina ama esse timido donzel, e julga-se correspondida?
_Electra_
Suspeito que me corresponde... Mas não o asseguro...
_Cuesta_
Tenha confiança em mim, e conte-me isso.
_Electra_
Agora não, que vou vestir-me.
_Cuesta_
Falaremos depois.
_Electra_
(_medrosa, olhando para o fundo_) Se não viesse a tia...
_Cuesta_
Vista-se... Ámanhã será.
_Electra_
Sim, ámanhã. Adeus. (_Corre para a direita. Movida de uma ideia repentina
dá meia volta_) Antes de me vestir... (_Áparte_) Não resisto. Vou dar-lhe
um beijo. (_Sae correndo pela esquerda. Cuesta segue-a com a vista e
suspira_)
SCENA XII
CUESTA, URBANO E EVARISTA; depois ELECTRA
_Cuesta_
(_reunindo e recolhendo os papeis_) Que felicidade a minha, se
publicamente a pudesse amar!
_Evarista_
(_vestida para sahir_) Desculpe terem-no deixado para ahi, Leonardo. Já
me disse Urbano que lançamos uma grande operação.
_Urbano_
(_entregando a Cuesta um talão_) Ahi tens.
_Evarista_
Não me espantarei se o vir apparecer-nos com outra carga de dinheiro...
Deus o dá, Deus o recebe... (_Assoma Electra pela porta da esquerda.
Ao vêr a tia hesita, não se atreve a atravessar. Decide-se por fim,
procurando escapulir-se. Evarista segura-a_) Ora não ha! Então ainda te
não vestiste? D’onde vens?
_Electra_
Da casa de engommar. Fui á Patros para me alisar um papo...
_Evarista_
Gabo-te a pachorra! (_Notando que sae a ponta de uma carta de uma das
algibeiras do avental de Electra_) Que tens aqui? (_Pega na carta_)
_Electra_
Uma carta.
_Cuesta_
Creancices.
_Evarista_
Não imagina, Cuesta, o desgosto que esta rapariga me dá com as suas
travessuras, que já não são tão innocentes como isso! (_Dá a carta a
Urbano_) Lê tu.
_Cuesta_
Vamos a vêr isso.
_Urbano_
(_lendo_) Senhorita—Tenho para mim que n’esse rosto feiticeiro...
_Evarista_
(_zombando_) Muito bonito! (_Electra contém difficilmente o riso_)
_Urbano_
(_continúa a ler_) ...que n’esse rosto feiticeiro escreveu o Supremo
artifice o problema do... do... (_Sem entender a palavra seguinte_)
_Electra_
(_apontando_) ...do «cosmos».
_Urbano_
Isso mesmo: do cosmos, symbolisando em seu luminoso olhar, na sua bocca
divina, o poderoso agente physico, que...
_Evarista_
(_arrebatando a carta_) Que indecencias!
_Urbano_
(_descobrindo outra carta em outro bolso_) está outra. (_Pega n’ella_)
_Cuesta_
Vejamos essa!
_Evarista_
Isto, Electra, não é o corpo de uma menina: é um marco postal.
_Urbano_
(_lendo_) Desapiedada Electra, com que palavras exprimirei o meu
desespero, a minha loucura, o meu frenesi...?
_Evarista_
Basta... Isso revolta-me. (_Incommodada revista as algibeiras de
Electra_) Apostaria que ainda ha mais.
_Cuesta_
Indulgencia, Evarista!
_Electra_
Tia, não se amofine mais...
_Evarista_
Que me não amofine!... A amofinação eu t’a contarei... Veste-te
immediatamente.
_Urbano_
(_consultando o relogio_) É quasi a hora.
_Electra_
N’um momento!
_Evarista_
Avia-te, avia-te! (_Electra, contente de se vêr solta, corre para o seu
quarto_)
SCENA XIII
CUESTA, URBANO, EVARISTA E PANTOJA
_Evarista_
(_com tristeza e desalento_) E então, Leonardo, que me diz a isto?
_Cuesta_
O socego com que deixou devassar os seus segredos demonstra bem a pouca
importancia que lhes dá e que elles teem.
_Evarista_
Não, não é tanto assim...
_Pantoja_
(_pelo fundo, anciado_) Está o Cuesta! Já se não pode dizer o que se
quer...
_Evarista_
(_contente de vêl-o_) Até que emfim, Pantoja... (_Formam-se dois grupos:
á esquerda Cuesta sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista,
sentados_)
_Pantoja_
Venho contar-lhe coisas da maior gravidade.
_Evarista_
Ai de mim! seja o que Deus quizer.
_Pantoja_
(_repetindo a phrase com reservas_) Seja o que Deus quizer... está muito
bem, mas queiramos tambem nós o que quer Deus, e empenhemos toda a nossa
vontade em produzir o bem, por mais que nos custe!
_Evarista_
A sua energia fortifica a minha... Então... que ha?
_Pantoja_
Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se de Electra em termos dissolutos.
Contavam que, indecorosamente envolvida por um vespeiro de namorados,
ella se divertia a receber e a mandar cartas a toda a hora do dia.
_Evarista_
Infelizmente, Salvador, a frivolidade d’esta menina é tal que, com toda a
minha ternura por ella, nem eu mesma a sei defender!
_Pantoja_
(_angustiado_) Pois saiba mais, e veja que não tem limites a maldade
humana. Hontem á noite o marquez de Ronda, na tertulia da sua casa, na
presença de Virginia, sua santa mulher, e de outras pessoas do maior
respeito, não cessou de exaltar os encantos de Electra com expressões do
mais material e repugnante mundanismo.
_Evarista_
Tenhamos paciencia, meu amigo.
_Pantoja_
Paciencia... Paciencia é uma virtude que vale muito pouco sempre que se
não reforça com a resolução. Não confundamos essa virtude com o vicio
da negligencia, e determinemo-nos com firmeza, minha querida amiga, a
resguardar Electra da infamia do mundo, em logar onde não veja exemplos
de leviandade e onde não ouça uma só palavra do contagioso impudor da
sociedade em que vivemos.
_Evarista_
Onde respire um ambiente de pura virtude...
_Pantoja_
E não a perturbe o zumbido de pretendentes impudicos e infecciosos...
Na critica edade da formação do caracter, em que ella está, temos nós a
obrigação de livral-a do immenso perigo, do maior de todos...
_Evarista_
Que perigo?
_Pantoja_
O homem. Nada na terra peor que o homem... quando não é bom. Por mim o
sei: fui o meu proprio mestre. O meu desvario, de que pela graça de Deus
me curei, e depois d’isso a minha tão longa e entristecida convalescença,
duramente me ensinaram a grave e delicada medicina das almas...
Deixe-me, e eu lhe salvarei essa menina... (_Interrompe-o Urbano, que
passa para o grupo da direita_)
_Urbano_
(_dando importancia á sua revelação_) Sabem o que me disse Cuesta?
Que entre a cafila dos pretendentes ha um preferido. Electra mesma o
confessou.
_Evarista_
E quem é? (_Passa da direita para a esquerda, ficando á direita de
Pantoja e d’Urbano_)
_Urbano_
(_a Pantoja_) Isto poderia modificar os termos do problema.
_Pantoja_
(_mal humorado_) E que significa essa preferencia? É um affecto puro, ou
é uma paixoneta immoderada, febril e ephemera, d’essas que constituem o
mais grave symptoma da loucura do seculo? (_Excitado e levantando a voz_)
É o que é preciso saber-se! que se saiba quem é!
_Urbano_
Saberemos...
_Pantoja_
(_passando para junto de Cuesta_) O snr. Cuesta não a interrogou?
_Evarista_
(_ao centro, a Urbano_) Procura tu certificar-te.
_Cuesta_
(_enfadado, em resposta a Pantoja_) Parece-me que estão os snrs.
desenvolvendo um zelo excessivo e contraproducente.
_Pantoja_
(_com uma suavidade que não encobre a sua altaneria_) O meu zelo, meu
muito querido D. Leonardo, é o zelo que devo ter.
_Cuesta_
(_um tanto ferido_) Eu julguei na minha qualidade de velho amigo da
casa...
_Pantoja_
(_levando Urbano comsigo para a direita_) Cuesta mette-se demais com o
que não é da sua conta.
_Cuesta_
(_a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o ouça_) O nosso presado
snr. Pantoja é talvez demasiadamente afouto na facilidade com que penetra
nas attribuições dos outros.
_Evarista_
(_sem saber bem que explicação dar_) Emfim, como nosso amigo muito antigo
e leal...
_Cuesta_
Tambem eu o sou.
_Urbano_
(_olhando para o fundo_) Ahi está já o Marquez.
SCENA XIV
OS MESMOS E O MARQUEZ
_Marquez_
Em boa hora chego!
_Pantoja_
(_áparte_) Em pessima!
_Marquez_
(_depois de saudar Evarista_) E Electra?
_Evarista_
Vem já.
_Marquez_
(_cortejando os outros_) Já não é cêdo.
_Urbano_
É a hora. (_Pantoja, impaciente, espera Electra á porta do seu quarto.
Cuesta fala com Urbano_)
SCENA XV
OS MESMOS E ELECTRA
_Pantoja_
(_com alegria annunciando-a_) Eil-a aqui. (_Electra entra pela direita,
muito elegantemente vestida com singeleza e distincção_)
_Marquez_
(_encomiastico_) Que elegante!
_Electra_
(_satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos os lados_) Meus
senhores, que me dizem?
_Cuesta_
Divina!
_Marquez_
Ideal!
_Evarista_
Sim: estás bem.
_Pantoja_
(_fastiento dos elogios tributados a Electra_) Vamo-nos? (_Preparam-se
para sahir_)
SCENA XVI
OS MESMOS E BALBINA, que interrompe bruscamente a scena,
entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada
_Balbina_
Minha senhora! Minha senhora! (_Suspensão geral_)
_Todos_
(_menos Electra_) Que é?
_Balbina_
Ai! o que a menina foi fazer!
_Electra_
(_áparte, batendo o pé_) Descobriram-me!
_Balbina_
Santo nome de Jesus!... Do que ella se havia de lembrar!... (_rindo_)
Não, que uma coisa assim!... Em nome do Padre...
_Evarista_
(_impaciente_) Acaba...
_Electra_
Eu confessarei, se me deixam. Foi que...
_Balbina_
Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe... com muita graça, mas
roubou...
_Urbano_
O quê?...
_Balbina_
O menino mais pequeno! (_Olham todos para Electra, que promptamente se
recompõe do susto e assume uma altitude serena e grave_)
_Evarista_
(_a Electra_) Isto que vem a ser?
_Pantoja_
Electra!
_Balbina_
Estava o menino dormindo muito socegadinho. A senhorita e a maluca da
Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas e em bicos de pés...
Embrulharam-o, muito bem embrulhado, e fugiram com elle para cá.
_Evarista_
É inacreditavel.
_Pantoja_
(_reprimindo a sua irritação_) E não é decente.
_Electra_
(_com effusão_) Tia! pois se nos queremos tanto, tanto d’alma!... eu a
elle e elle a mim!
_Marquez_
(_enthusiasmado_) Que exemplar mulher!
_Cuesta_
Merece todo o perdão.
_Evarista_
Maximo estará furioso a estas horas...
_Balbina_
O José já para lá foi a correr...
_Urbano_
E a creança onde está?
_Balbina_
Está no quarto da Patros. A menina escondeu-o lá até que ella de noite
lh’o leve para dormir com a menina. (_Sorrisos dos homens, menos de
Pantoja_) O menino acordou ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe um
biscouto para o entreter... Eu, que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem
Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou e bateu-me... Tive de lhe
dar uma palmadinha tambem...
_Electra_
(_correndo para a esquerda com um impulso instinctivo_) Oh! meu querido
amorsinho!
_Pantoja_
(_procurando contel-a_) Não.
_Evarista_
(_segurando-a por um braço_) Espera.
_Balbina_
(_á porta da esquerda_) Ainda se ouve chorar.
_Electra_
Pobresinho d’elle!
_Evarista_
Que o levem para a sua casa.
_Electra_
Ninguem lhe toque... Ninguem se atreva a tocar-lhe... É meu.
(_Desprende-se á força de Evarista e de Pantoja, que querem contel-a, e
sae de uma corrida pela esquerda_)
SCENA XVII
OS MESMOS E JOSÉ
_Pantoja_
(_colerico, passando para a direita_) Que falta de dignidade e de juizo!
_José_
(_pressuroso, pelo jardim_) Minha senhora...
_Evarista_
O snr. D. Maximo que disse?
_José_
Não sabia de nada. Está lá com uns senhores. Quando lhe contei poz-se a
rir... Como se nada!... Diz que o menino que está muito bem entregue á
menina.
_Urbano_
Já é pachorra!
_Evarista_
(_a José_) Vaes leval-o a casa. Para que a menina aprenda.
_Marquez_
Voto por que a deixem gosar um pouco mais do seu lindo crime.
SCENA XVIII
OS MESMOS E ELECTRA, pela esquerda, trazendo nos braços o
menino, que tem pouco mais ou menos dois annos
_Electra_
Queridinho da minh’alma!
_Evarista_
Deixa o menino, e vamo-nos.
_Urbano_
São horas.
_Cuesta_
(_ao marquez_) Eu, pela minha parte, acho que é um rasgo de maternidade.
E applaudo-o.
_Marquez_
Eu digo que é um lance angelico. E adoro-o.
_Evarista_
(_querendo pegar no menino_) Então, Electra?
_Electra_
(_em passo ligeiro afasta-se dos que querem tirar-lhe o pequerrucho. Este
abraça-lhe o pescoço_) Não, não posso deixal-o agora.
_Evarista_
Balbina, pega n’esse menino.
_Electra_
(_passa de um lado para o outro, procurando um refugio_) Não! e não!
_Urbano_
Dá-m’o a mim.
_Electra_
Não!
_Pantoja_
(_imperioso, a José_) Pegue n’elle, José.
_Electra_
Não, já disse!... Ninguem lhe toca... É meu.
_Evarista_
Mas, filha, se temos de sahir!
_Electra_
Saiam! vão com Deus. (_Vendo que o chapeu a inhibe de abraçar e beijar
o seu amiguinho, arranca-o rapidamente da cabeça e atira-o para longe.
Continúa a passear o menino, fugindo dos que lh’o querem tirar, e, sem
ouvir, falando com o pequerrucho, que lhe deita os braços ao pescoço e a
beija_) Dorme, dorme, meu amor. Não tenhas medo, filhinho... Dorme, que
não te largo.
_Evarista_
Então vamos ou não vamos?
_Electra_
Eu não vou... Tens fome? tens sede, meu anjo? Eu te acalentarei... Deixa
berrar esses egoistas todos, que se não lembram de que não tens mãe!
_Pantoja_
Mas tem quem olhe por elle.
_Evarista_
Basta! (_Imperiosa, aos creados_) levem-o para a sua casa.
_Electra_
(_resolutamente, sem deixar que toquem na creança_) A casa! a casa!
(_Com passo decidido, sem olhar para ninguem, corre para o jardim e sae.
Seguem-a todos com a vista, indecisos, não ousando dar um passo para
ella_)
_Pantoja_
Que escandalo!
_Evarista_
Que loucura!
_Marquez_
Que juizo! o juizo mais perfeito da mulher! Achou o seu caminho.
FIM DO SEGUNDO ACTO
ACTO TERCEIRO
O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte da
parede, divisoria com revestimento de madeira na parte inferior
e envidraçada para cima. Este tapamento separa a scena d’um
vasto local, em que se vêem maquinas e apparelhos para a
producção de energia electrica. A porta praticavel no socco
divisoria communica com a rua.
Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá passagem para
o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No ultimo plano, uma porta
de communicação com a habitação de Maximo e com a cosinha.
Entre a porta e o corredor, uma estante com livros.
Á esquerda, porta de passagem para as casas em que trabalham os
ajudantes. Junto a esta porta, uma estante com apparelhos de
physica e objectos de uso scientifico.
Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras com
frascos de diversas substancias e livros. No angulo da direita
um pequeno aparador.
Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os objectos que
no dialogo se indicam. Fazendo angulo com ella, a balança de
precisão sobre um supporte de fabrica.
Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras.
SCENA I
MAXIMO, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao que
está fazendo—ELECTRA em pé, arranjando os multiplos objectos
que estão na meza: livros, capsulas, tubos de ensaio, etc.
Veste com simplicidade caseira, e grande avental branco.
_Maximo_
(_sem levantar os olhos do papel_) Para mim, Electra, a dupla historia
que me contas, esse supposto poder dos dois cavalheiros, é um facto
destituido de valor positivo.
_Electra_
(_suspirando_) Deus te ouça!
_Maximo_
Tudo se reduz a duas paternidades platonicas sem nenhum effeito legal...
até agora. O mais feio do caso é a auctoridade que quer assumir o snr. de
Pantoja...
_Electra_
Auctoridade oppressiva, suffocante, que me tira o ar. Nem me fales
n’isso, se não me queres amargurar a alegria de estar cá em casa!
_Maximo_
Devéras? assim te affliges?
_Electra_
Ainda mais: ponho-me n’esse estado singularissimo de cabeça e de
nervos... Já te contei... Em certas occasiões da minha vida apodera-se de
mim um desejo, fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a imagem da minha
pobre mãe, como a via na minha meninez... Pois sempre que se aggrava para
mim a tyrannia de Pantoja, renasce o meu doloroso e invencivel anceio; e
sinto a perturbação nervosa e mental que me annuncia...
_Maximo_
A visão da tua mãe? Isso, rapariga, não é d’um espirito rijo e são.
Aprende-me a governar essa imaginação... Trabalha-me para a frente, e á
má cara. O ocio é o peor de todos os perturbadores da intelligencia.
_Electra_
(_muito animada_) Cá estou seguindo á risca o que me mandaste fazer.
(_Pega n’uns frascos de substancias mineraes e leva-os para uma das
estantes_) Estes frascos para o seu logar... Emquanto penso n’isto nem
penso na furia da tia logo que souber...
_Maximo_
(_attento ao trabalho_) A tia até ha de acabar por gostar... Mas
deixa que tu, tambem!... Não te bastou a loucura d’hontem... raptar
insidiosamente o menino... Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o
e adormecel-o, muito mais tempo que o regular... E, não contente ainda
com a saturnal d’hontem, pespegas-te hoje cá em casa, e aqui andas
a sargentear, para uma banda e para outra, muitissimo fresca da tua
vida!... Ainda foi por Deus, que convidados para a distribuição dos
premios e para o almoço em Santa Clara os tios ainda a estas horas
ignorem o pulo medonho que a boneca deu da casa d’elles para a minha!
_Electra_
Tu é que me aconselhaste que me insubordinasse... «_Insubordina-te!_»
_Maximo_
Sim senhor: fui o instigador do delicto... E gabo-me d’isso.
_Electra_
A minha consciencia diz-me que não ha mal nenhum no que faço.
_Maximo_
Pois está bem de vêr que não ha... Foi talvez para casa de um pulha que
tu vieste!... Não faltaria mais nada senão que principiasse agora a haver
mal em estar alguem na minha casa!
_Electra_
(_trabalhando sempre e falando sem se distrahir do que faz_) Eu digo
mais: estando tu esmagado de trabalho, só, sem creados, e estando eu
para ahi, de mãos a abanar, sem ter absolutamente nada que fazer, o que
pareceria mal, o que seria indecente, é que eu não viesse...
_Maximo_
Cuidar de mim e dos pequenos... Effectivamente, se isso não é logica,
digo-te que botemos luto, porque já não ha logica no mundo!
_Electra_
Queridos pequerruchinhos! Toda a gente sabe que os adoro... São a minha
paixão, o meu fraco... (_Maximo, abstrahido n’uma conta, cessa de dar
attenção ao que ouve_) Chega-me a parecer... (_Approxima-se da mesa
levando uns livros que não estavam no seu logar_)
_Maximo_
(_vagamente_) Quê?
_Electra_
Que nem a sua propria mãe lhes quereria tanto como eu!
_Maximo_
(_satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo em voz alta uma
cifra_) Zero, trezentos e dezoito... Fazes favor de me dar as _Tabellas
de resistencias_... aquelle livro encarnado...
_Electra_
(_correndo á estante da direita_) Não é este?
_Maximo_
Mais adeante.
_Electra_
É verdade... que tôla!
_Maximo_
Fica-te muito bem,—sabes?—que em tão pouco tempo conheças todos os meus
livros e os seus logares na estante...
_Electra_
Não dirás que te não puz tudo muito arranjadinho.
_Maximo_
Não; e darei graças a Deus, porque entrou finalmente n’este antro,
revolto e poeirento, a limpeza e a ordem!
_Electra_
(_desvanecida_) Confessas então que não sou absolutamente, absolutamente
inutil?
_Maximo_
(_olhando com fixidez para ella_) Não ha nada inutil na creação. Quem te
diz a ti que te não creou Deus para altos destinos? Quem te diz que não
virás a ser...
_Electra_
(_anciosa_) O quê?
_Maximo_
Uma alma grande, formosa e nobre, que está por hora meia afofada ainda na
serradura e na estopa de uma boneca?
_Electra_
(_com alegria_) Pae do ceu, se assim fosse! (_Maximo levanta-se e, na
estante da esquerda, pega n’umas barras de metal, que examina_) Nem me
digas isso que me entonteces de alegria... Pode-se cantar?...
_Maximo_
Podes cantar... (_Electra repete trauteando o andante de uma sonata_)
A boa musica é a espóra das ideias preguiçosas, que não affluem; e
é o gancho que puxa pelas que estão agarradas de mais ao fundo do
entendimento. Canta, companheira, canta... (_Prosegue attento á sua
occupação_)
_Electra_
(_á estante do fundo_) Continúo coordenando isto. Os metaloides para este
lado. Já os conheço pelos rotulos... Como este trabalhito entretem! Era
capaz de ficar aqui todo o santo dia...
_Maximo_
(_jovial_) Camarada!
_Electra_
(_correndo para elle_) Que manda o magico?
_Maximo_
Eu não mando por ora. Proponho. (_Pega n’um frasco que contém um metal em
limalha_) Se a menina magica quer collaborar commigo ha de fazer favor de
me pesar trinta grammas d’este metal.
_Electra_
Péso.
_Maximo_
Sabes já pesar na balança de precisão...
_Electra_
Perfeitamente. Dá cá. (_Alegre, contente, ao deitar o metal na capsula,
admira-lhe a belleza_) É lindo! Que é isto?
_Maximo_
É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa pouco...
_Electra_
Ah! eu então?...
_Maximo_
Pesa pouco, mas é extremamente tenaz. (_Olhando-lhe para a cara_) Tu
tambem?
_Electra_
Em coisas que eu cá sei, sou tenaz até á barbaridade, e, chegado o
momento, estou certa de que o seria até ao martyrio. (_Continúa pesando
sem interromper a operação_)
_Maximo_
Que coisas são essas?
_Electra_
Que te importa! Tu és o magico, mas eu é que magíco... commigo, ás vezes.
_Maximo_
(_attento ao trabalho_) Pesas-me depois setenta grammas de cobre.
(_Dá-lhe outro frasco_)
_Electra_
O cobre então serás tu... Não: é tambem feio de mais para se parecer
comtigo.
_Maximo_
É feio, mas util.
_Electra_
Compara-te antes ao ouro, que é o que vale mais.
_Maximo_
Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me o laboratorio.
_Electra_
Dá ao menos licença de que me reveja nas qualidades do metal bonito que
se parece commigo... Sou tenaz... Não me quebro... Farás favor de o dizer
á tia e ao tio Urbano, que, no sermão que me prégaram esta manhã, por
umas quarenta vezes me disseram que sou fragil... Fragil, eu!
_Maximo_
Não sabem o que dizem.
_Electra_
Sabem lá elles... nem o que é o aluminio, nem o que eu sou!
_Maximo_
Mas toma sentido, que te não equivoques no peso!
_Electra_
Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho muito mais tino do que ninguem cuida!
_Maximo_
Já vou vendo, já vou vendo! (_Dirige-se a uma das estantes em procura
d’um cadinho_) A tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de custar um
pouco mais a compenetrar-se de que tenhas todo o tino que dizes...
_Electra_
Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho culpa! Porque é que a tia não
deixa que eu venha para cá?
_Maximo_
(_voltando com o cadinho que escolheu_) Por que tu és uma menina
solteira, e as meninas solteiras não podem ficar assim em casa d’um homem
só, por mais honrado e por mais digno que elle seja.
_Electra_
Pois, senhor, não haja dúvida que, por essa regra, estão divertidas as
pobres meninas solteiras! (_Termina o peso e apresenta os dois metaes
pesados nas suas duas capsulas de porcelana_) Aqui tens o aluminio e o
cobre.
_Maximo_
(_pegando nas capsulas_) Um primor. Que limpeza de mãos... Que firmeza de
pulso, e que serenidade de attenção para não fazer d’isto uma trapalhada!
Estás fina.
_Electra_
Estou contente apenas. Quando se tem a alegria tudo corre bem.
_Maximo_
Ahi disse a collega uma importantissima verdade. (_Verte os dois corpos
no cadinho_)
_Electra_
Isso é um cadinho, não é?
_Maximo_
Sim senhor, para fundirmos os dois metaes.
_Electra_
Para nos fundirmos tu e eu, se não pegarmos á bulha no meio do fogo...
(_Trauteia a sonata_)
_Maximo_
Faze favor de chamar o Ricardo.
_Electra_
(_correndo á porta da esquerda_) Ricardo!
_Maximo_
Que venha tambem o Gil.
_Electra_
Gil! Venham ambos, que manda o mestre... não se demorem!
SCENA II
ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL, o primeiro vestido de operario,
com blusa, o segundo em trage burguez, com mangas de alpaca,
pena na orelha
_Gil_
(_mostrando um calculo_) Aqui está o valor obtido.
_Maximo_
(_lê rapidamente a cifra_) 0,158,073... Está errado (_Seguro do que diz
e com certa severidade_) Não é possivel que para um diametro de cabo
menor de quatro millimetros obtenhamos um circuito maior, segundo o teu
calculo. A verdadeira distancia deve ser inferior a duzentos kilometros...
_Gil_
Não sei então... eu... (_Confuso_)
_Maximo_
Está mal. É que te distrahiste.
_Electra_
É que vocês, coitados, não teem... a attenção serena...
_Maximo_
Emquanto fazeis os calculos estaes a pensar em historias da carocha.
_Electra_
E a conversar, a falar de touros, de theatros, da politica... assim não
fazemos nada.
_Gil_
Vou rectificar as operações.
_Electra_
E, sobretudo, muita paciencia, muita contensão, todos os cinco
sentidos!... Senão tornamos á mesma.
_Gil_
Vou vêr isto.
_Maximo_
Anda lá e não te descuides (_Gil sae e Maximo, virando-se para Ricardo,
entrega-lhe o cadinho_) Aqui tens.
_Ricardo_
Para fundir...
_Maximo_
Está preparado o forno?
_Ricardo_
Sim senhor.
_Maximo_
Mette immediatamente, e quando esteja em fusão, avisa. Com esta aleação
vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade... Espero chegar aos
duzentos kilometros com perda escassissima.
_Ricardo_
Faz-se o ensaio hoje?
_Maximo_
(_atormentado por uma ideia fixa_) Sim, quanto antes. Não abandono este
problema. (_A Electra_) É a minha ideia fixa, que me não deixa viver.
_Electra_
Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por ella vivo. Avante!
_Maximo_
Avante, _Electra_! Avante, _Ricardo_!
_Ricardo_
Não manda mais nada, patrão?
_Maximo_
Que actives a fusão.
_Electra_
Que se fundam bem os metaes!
_Ricardo_
Hão de ficar os dois em um só, senhorita.
_Electra_
Dois n’um.
_Maximo_
(_como preparando-se para outra occupação_) Agora, minha graciosa
discipula...
_Electra_
Agora ha de o mestre perdoar, mas tenho de ir vêr se acordaram os meninos.
_Maximo_
Ha quanto tempo comeram?
_Electra_
Ha trez quartos d’hora. Devem dormir meia hora mais. Está bem regulado
assim?
_Maximo_
Está bem tudo o que determines.
_Electra_
Olha o que dizes, que estarás por tudo...
_Maximo_
(_carinhosamente_) Por tudo.
_Electra_
Que se fique sabendo!... Eu venho já. (_Sae ligeira e cantando pela
esquerda. Entra ao mesmo tempo um operario, pelo fundo_)
SCENA III
MAXIMO E O OPERARIO
_Maximo_
Que ha?
_Operario_
Veio aquelle senhor, o marquez de Ronda...
_Maximo_
Porque não entrou?
_Operario_
Perguntou pelo patrão... Disse-lhe que tinha uma visita... Elle então,
como pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha de ser a senhorita
Electra... Voltarei logo».
_Maximo_
Porque lhe não disseste que entrasse, meu pascacio?
_Operario_
Como me disse que voltava...
_Maximo_
Pois sempre que vier, que entre, esteja que não esteja a senhorita
Electra, e sobretudo estando.
_Operario_
Assim se fará. (_Sae pelo fundo_)
SCENA IV
MAXIMO E ELECTRA
_Electra_
(_voltando do interior da casa_) Dormidinhos como dois anjos... até
d’aqui a meia hora...
_Maximo_
E os adultos não comem? não se almoça hoje n’esta casa?
_Electra_
Quando queiras. Está feito o almoço. (_Dirige-se para o aparador, onde
está a pequena baixella: talheres, toalha, guardanapos, fructeira_)
_Maximo_
É como deve ser... Tudo a horas... assim se chega sempre ao que se quer.
_Electra_
(_estendendo a toalha_) Ao que eu quero não chegarei nunca por mais
pontualidade que ponha...
_Maximo_
Deixa-me ajudar-te... (_Vae-lhe passando os pratos, os talheres, o pão, o
vinho_) Chegas, sim.
_Electra_
Achas?
_Maximo_
Acho. Tão certo que chegas como que tenho uma fome de cincoenta cavallos
de força.
_Electra_
Melhor, para que te agrade o almoço.
_Maximo_
A elle!
_Electra_
N’um minuto. (_Sae_)
SCENA V
MAXIMO E GIL
_Maximo_
Bemdita seja essa mulhersinha preciosa, que tão simples, tão instinctiva,
tão ingenuamente, traz a sua grande alma inquieta, torturada e núa, a
inundar de alegria e de luz este esconderijo da sciencia, transformando
tão estreita aridez em tão vasto paraizo! Bemdita a que com um mero
sorriso de creança vem arrancar da sua abstracção consumidora este pobre
Fausto, envelhecido aos trinta e cinco annos, e dizer-lhe: «Nem só de
verdades se vive!» (_Interrompe-o Gil, que tem entrado um pouco antes e
se approxima sem ser visto_)
_Gil_
(_satisfeito mostrando o calculo_) Pronto. Creio ter achado a cifra
exacta.
_Maximo_
(_pega no papel e olha-o vagamente, sem se fixar_) A exactidão!... E
tambem tu pensarás que só de coisas exactas vive o homem!? Saturada
de certeza, a alma insaciada appetece, mais que tudo, o que é apenas o
sonho, e vôa para elle, avassalada e rendida, sem nem sequer tentar saber
se é para a realidade, se para a illusão, que vôa!... Considerando bem,
Gil, nada mais natural do que um equivoco de calculo.
_Gil_
Sim, senhor, muito facilmente se distrae uma pessoa pensando em...
_Maximo_
Em coisas vagas, indefinidas, aereas, vaporosamente illuminadas de côr de
rosa e d’azul...
_Gil_
Eu, distrahido, confundi a cifra da potencial com a da resistencia... Mas
já rectifiquei... Queira vêr se está bem.
_Maximo_
(_lê_) 0,318,73... (_Com repentina transição para um goso expansivo_)
Homem! e que não estivesse! Se ainda errasses outra vez?... A exactidão
dos mathematicos perdoaria, por hoje, á nossa phantasia de poetas.
_Gil_
Ah! a exactidão não perdôa nunca: é a tyrannia da nossa vida;
opprime-nos, escravisa-nos, não nos deixa respirar.
_Maximo_
Essa mestra implacavel tambem algumas vezes nos sorri, nos acalenta e nos
encanta. Vês essa cifra?
_Gil_
(_contente, dizendo de memoria_) 0,318,73.
_Maximo_
Pois sabe que nunca os maiores poetas do mundo, Virgilio ou Homero,
Dante, Lope de Vega ou Calderon escreveram estrophe mais inspirada e mais
poetica do que é hoje para mim a d’esses miseros numeros! É verdade que a
harmonia, o encanto poetico não é n’elles que está. Está em que... Adeus,
vae almoçar... Deixa-me, deixa-nos... (_Afasta-o com a mão para que saia.
No ponto da scena em que pode olhar para o interior da habitação_) Ali é
que está a imaginação, a poesia, o ideal, no fundo d’essa cosinha, onde
n’este momento ondula a mais altiva e a mais virginal flôr da innocencia,
da candura e da bondade humana.
SCENA VI
MAXIMO E ELECTRA
_Electra_
(_entrando com uma terrina fumegante_) Aqui está o banquete.
_Maximo_
A vêr o que se fez! arroz com menudilhos... O thema é digno de Lucullo.
_Electra_
Elogia-o sem provar: está superfino. (_Senta-se_) Vou-te servir.
(_Servindo-o_)
_Maximo_
Não tanto.
_Electra_
Olha que não tens mais nada... Acho que se não deve ter mais d’uma
coisa... e escolher a melhor.
_Maximo_
Meu Deus! o que diria a tia, se agora nos visse aqui almoçando juntos...
_Electra_
Um almoço feito por mim!
_Maximo_
Sabes que está maravilhoso o teu arroz?
_Electra_
Foi minha mestra, em Hendaya, uma senhora valenciana. Eu fiz um curso de
arrozes. Sei-os fazer de sete maneiras differentes, todos riquissimos.
_Maximo_
Decididamente és todo um mundo novo.
_Electra_
E quem é o meu Colombo?
_Maximo_
Não ha Colombo que ousasse descobrir-te. Tu és um mundo que apparece.
_Electra_
Será talvez por eu ser um mundosito assim desconhecido, que querem
metter-me no convento para me livrar do perigo de que dêem commigo. E é
o que me espera...
_Maximo_
D’essa é bem natural que não escapes.
_Electra_
(_assustada_) Que dizes!
_Maximo_
Quero dizer: escapas... porque te hei de salvar eu.
_Electra_
Prometteste-me o teu amparo.
_Maximo_
E dou-t’o.
_Electra_
Que tencionas fazer?
_Maximo_
Eu te digo: o negocio é grave...
_Electra_
Falas com a tia, já se sabe...
_Maximo_
Falo com a tia...
_Electra_
E que lhe dizes?
_Maximo_
Falo com o tio...
_Electra_
Façamos de conta que se acabaram todos os tios com quem fazes tenção de
falar. E depois?
_Maximo_
Depois, tendo-te provisoriamente abrigado no mais inviolavel sacrario,
procederei minuciosamente ao exame e á sellecção dos noivos. E sobre este
assumpto temos que conversar...
_Electra_
Vaes ralhar-me?
_Maximo_
Não: já me disseste que te enfastia esse brinquedo de bonecos vivos.
_Electra_
Cuidei que me distrahiriam, e cada vez me entristeciam mais!
_Maximo_
Nenhum d’elles te inspirou um sentimento especial, distincto do dos
outros?
_Electra_
Nenhum!
_Maximo_
Declararam-se todos por escripto?
_Electra_
Uns por escripto; outros por meio de olhares espantosos, que nunca
cheguei a comprehender bem o que quizessem exprimir, e por isso não metto
estes em conta...
_Maximo_
Perdão: teem de entrar todos no rol: epistolares e olheiros. E aqui
chegamos ao ponto sobre que devo dar-te, desde já, a minha sincera
opinião: casa-te, Electra; casa-te quanto antes!
_Electra_
(_envergonhada, baixando os olhos_) Assim... tão breve!...
_Maximo_
O mais breve possivel. Precisas de ter a teu lado um homem, um marido.
Tens a alma, a tempera, os instinctos e as virtudes da casa conjugal. É
portanto forçoso que da grande lista dos teus pretendentes se escolha
um, o melhor, o mais digno de te amar e de ser amado por ti, porque, sem
amor, considera bem que não ha familia.
_Electra_
Estou certa.
_Maximo_
E tu nasceste destinada para a vida exemplar e fecunda de um lar feliz...
(_Teem acabado de comer o arroz_)
_Electra_
Queres mais?
_Maximo_
Não: estou satisfeito.
_Electra_
De sobremesa tens fructa, que é do que mais gostas. (_Põe na mesa o
fructeiro_)
_Maximo_
(_pegando n’uma bella maçã_) Gósto, porque esta (_mostrando-lhe a maçã_)
é a verdade em toda a sua pureza. Aqui não interveio a mão do homem senão
para a colher.
_Electra_
É a obra divina, bella, simples, admiravel.
_Maximo_
Faz Deus esta prodigiosa maravilha para a dar ao homem; e nem sempre lh’a
agradece aquelle que foi eleito para em certo dia e a certa hora passar
por baixo da macieira em fructo!
_Electra_
Quantas vezes basta, para colher a felicidade, esquecer-se a gente por um
momento da terra, e levantar os olhos para cima!
_Maximo_
(_contemplando-a_) Pois é o que eu faço, Electra.
SCENA VII
ELECTRA, MAXIMO E RICARDO, pela esquerda
_Ricardo_
Mestre...
_Maximo_
Quê?
_Ricardo_
Chegamos ao rubro.
_Electra_
A fusão!
_Maximo_
Avisa-me ao branco incipiente.
_Ricardo_
Virei dizer.
_Maximo_
Olha. Que preparem na officina a bateria Bunsen. E previne de que hei de
precisar para logo do dinamo grande.
SCENA VIII
ELECTRA E MAXIMO, depois o OPERARIO
_Electra_
(_com tristeza_) D’aqui a um instante vaes tratar da fusão, e eu...
_Maximo_
Tu—está claro—irás para casa.
_Electra_
Nem é bom pensar no que vae ser quando eu chegue!
_Maximo_
Tu ouves, calas-te, e esperas.
_Electra_
Esperar... esperar sempre! (_Acabam de almoçar_) Ai que, se tu me não
vales, não sei o que será de mim, com a tia e com o snr. de Pantoja...
Elles a teimarem que eu vá para anjo, e Deus a desageitar-me cada vez
mais para a carreira angelical!
_Maximo_
(_que se tem levantado e parece disposto a continuar o trabalho_) Não
tenhas cuidado. Confia em mim. Eu te irei requerer como teu protector e
teu mestre...
_Electra_
(_approximando-se supplicante_) Não te demores então, Maximo. Por amor
dos teus filhos, não te demores. Se tu me tomasses tambem como filha,
para estar com os meninos, para viver com elles!
_Operario_
(_pelo fundo_) O snr. marquez de Ronda.
_Electra_
(_assustada_) Vou-me embora?
_Maximo_
Por vir o Marquez? (_Ao creado_) Que entre. (_O operario sae_)
Offerecia-se-lhe café, se houvesse.
_Electra_
Vou buscal-o. (_Sae com pressa_)
SCENA IX
MAXIMO, MARQUEZ E ELECTRA. No fim da scena, RICARDO
_Maximo_
Entre, Marquez.
_Marquez_
Maximo... (_Olhando em redor, desconsolado_) E Electra?
_Maximo_
Na cosinha. Foi buscar-nos café.
_Marquez_
Na cosinha! Continua-se vivendo então n’esta casa como na ilha de
Robinson? Ahi está o que não comprehendo: como tendo você lá em cima
todos os confôrtos d’um palacio...
_Maximo_
É muito simples... O trabalho e o habito do estudo enclausuram-me
aqui. Puz os pequenos ao lado da officina para os ter ao pé de mim; e,
reduzindo o mais que me foi possivel a minha orbita d’acção, para aqui
me fiquei, recluso no dever que me impuz, como um asceta na estreiteza da
sua gruta.
_Marquez_
Sem nem sequer se lembrar de que é rico...
_Maximo_
A minha riqueza é a singeleza, o meu luxo é a sobriedade, o meu repouso é
o trabalho, e assim viverei emquanto viver só...
_Marquez_
Não tardará então muito em mudar de vida... Precisamente lhe venho
contar... (_Entra Electra com a bandeja contendo o serviço e a maquina de
café_) Oh! a deusa do lar!
_Electra_
(_adeanta-se cautelosa de que não caia alguma peça_) Por Deus, Marquez,
não me ralhe.
_Marquez_
Eu ralhar?
_Electra_
Nem me faça rir... para não haver um desastre. Sentido! (_O marquez pega
na bandeja_)
_Marquez_
Aqui me tem para companheiro de infortunios... Ainda então lhe parece que
eu seja dos que ralham? Eu sou dos que explicam. Mas não pertencem a esta
seita os senhores ali do outro lado do jardim...
_Electra_
Os tios.
_Marquez_
A noticia do lindo idyllio, que se está passando aqui como na
inverosimilhança de uma tapeçaria ou de um panno de leque, lá chegou já
á distribuição dos premios em Santa Clara, onde a estas horas estará
deliberando o conclave. As suas resoluções serão terriveis.
_Electra_
A Virgem Maria me valha!
_Marquez_
Socegue...
_Maximo_
Isso tem de ser agora commigo.
_Marquez_
Será comnosco. O seu café, minha menina, está digno de Jupiter, pae dos
deuses: é do que elles tomam no olympo, aos domingos.
_Maximo_
Segue-se, Electra, que em vez de regressar sósinha, teremos de ir ambos
levar-te aos snrs. de Yuste.
_Ricardo_
(_assumando á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco incipiente!
_Electra_
(_com inconsciente alegria infantil_) A fusão!
_Maximo_
(_a Ricardo_) Não posso agora. Chama-me quando chegar o branco
resplandecente. (_Ricardo sae_)
_Marquez_
Peço licença... (_Tendo-se servido de vinho_) Eu brindo o hymeneu dos
metaes, saudando os cadinhos do magico prodigioso.
SCENA X
MAXIMO, ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA
_Electra_
(_aterrada_) D. Salvador! Deus me acuda!
_Maximo_
Queira entrar, snr. de Pantoja. (_Pantoja adeanta-se lentamente_) A que
devo a honra...?
_Pantoja_
Antecipando-me aos meus bons amigos, tios d’esta menina, que d’aqui a um
momento terão voltado a casa, aqui me acho resolvido a cumprir o dever
d’elles e o meu.
_Maximo_
A familia toda consubstanciada no snr. de Pantoja...
_Marquez_
Para metter medo á gente.
_Maximo_
Considera-nos reus d’algum tremendo crime...
_Pantoja_
Não considero senão unicamente que esta menina não pode estar aqui. Venho
buscal-a. Ha de sahir commigo. (_Pega na mão de Electra, insensivel,
immobilisada pelo medo_) Vem.
_Maximo_
Queira perdoar (_Sereno e grave, approxima-se de Pantoja_) Com todo o
respeito que lhe devo, rogo-lhe, snr. de Pantoja, que solte a mão d’esta
senhora. Antes de lhe tocar, teria sido mais opportuno que falasse
commigo, que sou o dono d’esta casa, e o responsavel de tudo o que n’ella
se passa, de tudo o que vê... e de tudo o que não queira vêr.
_Pantoja_
(_depois de uma breve hesitação larga a mão de Electra_) Seja assim.
Deixarei de dirigir-me a esta pobre creatura, desvairada ou trazida aqui
ao engano, e falarei comtigo, a quem quizera dizer apenas muito breves
palavras:—Venho buscar Electra. Dá-me o que não te pertence, o que não te
pertencerá nunca.
_Maximo_
Electra é inteiramente livre. Nem eu a trouxe aqui contra sua vontade,
nem contra sua vontade a levará d’aqui quem quer que seja.
_Marquez_
Se se pudesse, pelo menos, conhecer os fundamentos da auctoridade do snr.
de Pantoja...
_Pantoja_
Eu não preciso de lhes dizer, aos senhores, qual é a proveniencia da
auctoridade de que disponho, e que esta menina me reconhece, prestando-me
a obediencia que lhe peço. Não é verdade, Electra, que basta uma palavra
minha para immediatamente te separar d’estes homens, e levar-te para quem
depositou em ti o seu mais puro amor, e nem vive nem quer viver na terra
senão para ti? (_Electra, immobilisada, olhando para o chão, cala-se_)
_Maximo_
Não, bem vê que não basta essa unica palavra sua.
_Marquez_
Não offerece dúvida que é uma palavra bôa, mas insufficiente.
_Maximo_
Quer permittir que a interrogue eu? Electra, minha querida amiga,
assegura-te o coração e a consciencia que entre todos os homens que
conheces, entre os que vês aqui e os que não estão presentes, é sómente e
exclusivamente ao muito dedicado e ao muito respeitavel snr. de Pantoja
que tu deves submissão e amor?
_Marquez_
Fale abertamente e destemidamente, menina! Diga-nos o que o seu coração e
a sua consciencia lhe dictarem.
_Maximo_
E se este senhor, a quem indubitavelmente deves toda a consideração e
todo o respeito, te ordenar que o sigas, e nós outros te dissermos que
fiques, de tua livre e plena vontade, que determinas?
_Electra_
(_depois de penosa lucta_) Ficar.
_Marquez_
Já vê...
_Pantoja_
Não está em si... Fascinaram-a.
_Maximo_
Parece-me inutil a insistencia...
_Marquez_
Para acabar vencido...
_Pantoja_
(_com fria tenacidade_) Eu não sou dos que os homens vencem. A razão é
vencedora sempre, e eu seria indigno da que Deus me deu, e que defenderei
até o meu derradeiro alento, se a não puzesse continuamente acima de todo
o erro e de todo o extravio. Maximo, os metaes que ardem nos teus fornos
são menos duros do que eu. As tuas mais poderosas maquinas são brinquedos
de vidro comparadas com a minha vontade. Electra pertence-me: basta que
eu o diga.
_Electra_
Que terror, meu Deus!
_Maximo_
Se quer assegurar-se do que póde a sua vontade opponha-a á minha.
_Pantoja_
Dispenso demonstrações comtigo ou com quem quer que seja. Basta-me saber
o que devo fazer, e fazer o que devo.
_Maximo_
Pois toda a minha força é essa: o dever.
_Pantoja_
O teu dever é uma hypothese terrena e accidental. O meu gira em torno de
uma consciencia tão rija e tão forte como o eixo do universo; e os meus
fins são tão altos que nem tu os alcanças nem poderás alcançal-os nunca.
_Maximo_
Por mais incommensuravel que seja a elevação dos seus fins, pelo amor de
Electra eu irei a toda essa altura, para a defender.
_Marquez_
Esta senhora voltará comnosco á sua casa.
_Maximo_
Commigo. E isso bastará para justificação de todos os seus actos, e para
que os tios lhe perdoem, se teem que perdoar-lhe.
_Pantoja_
Os senhores de Yuste não renegarão n’esta conjunctura os sentimentos e
as convicções de toda a sua vida. (_Exaltando-se_) Eu estou no mundo
unicamente para que Electra se não perca. E não se ha de perder. Assim o
quer a vontade divina, de que a minha é um reflexo, e que vós confundis
com um capricho da brutalidade humana, porque não sabeis nada do que são
nas puras regiões espirituaes as emprezas de uma alma... Pobres cegos!
pobres loucos!...
_Electra_
(_consternada_) D. Salvador, não se desgoste—por Nossa Senhora lh’o peço!
Eu não sou má, Maximo é bom... Sabem-o todos... Sabem-o os tios... e o
snr. de Pantoja bem o sabe! Não deveria sublevar-me até o ponto de vir
para aqui sósinha, como determinei vir... Foi um acto de grave rebeldia,
concordo. Voltarei para casa... Maximo e o snr. de Ronda irão commigo, e
os tios hão de perdoar-me... (_A Maximo e ao Marquez_) Não é verdade que
me perdoarão? (_A Pantoja_) Porque é esta má vontade a Maximo, que nunca
lhe fez mal nenhum?... Confessa—pois não é assim?—que elle nunca lhe fez
nem lhe quiz mal? Em que se funda essa aversão?
_Maximo_
Não é aversão: é odio recondito, inextinguivel.
_Pantoja_
Odiar-te, não. As minhas crenças prohibem-me o odio. De certo que ha
entre nós ambos uma incompatibilidade proveniente da nossa differença de
principios... Teu pae, Lazaro Yuste, e eu, tivemos desavenças profundas,
que é melhor esquecer... Mas a ti, Maximo, nunca te quiz mal... Antes
te quero bem. (_Mudando de tom para mais suave e conciliador_) Perdôa a
severidade com que te falei, e permitte que, fazendo um grande esforço
sobre mim, eu te implore que deixes Electra partir commigo.
_Maximo_
(_inflexivel_) Não posso annuir.
_Pantoja_
(_violentando-se mais_) Por segunda vez, Maximo, esquecendo todos os
resentimentos, profundamente humilhado, eu te supplico... Deixa-a.
_Maximo_
Não.
_Pantoja_
(_devorando o vexame_) Bem... Pela segunda vez m’o negaste... Para
offerecer ás tuas bofetadas não tenho mais de duas faces, por isso te não
peço por terceira vez a mesma coisa. (_Com gravidade e rigidez_) Adeus,
Electra... Maximo, Marquez, adeus.
_Electra_
(_baixo a Maximo_) Por quem és, Maximo, transige um pouco...
_Maximo_
(_redondamente_) Não.
_Electra_
Não disseste que me levarieis, tu e o Marquez? Vamos todos. (_Esta phrase
é ouvida por Pantoja que se detem na sua marcha lenta para a sahida_)
_Maximo_
Não... Ha de ir primeiro elle. Nós iremos quando nos convenha, e sem a
salvaguarda de ninguem.
_Pantoja_
(_friamente da porta_) E a que vaes senão a aggravar a situação d’essa
menina?
_Maximo_
Vou ao que devo ir.
_Pantoja_
Pode-se saber o que é?
_Maximo_
Escusado.
_Pantoja_
Não preciso de que me reveles as tuas intenções. Para quê, se as conheço?
(_Dá alguns passos para o centro da scena, cravando a vista em Maximo_)
Não me fio na expressão dos teus olhos. Penetro na tua mente, e descubro
o que pensas... Interroguei-te, não para saber da tua intenção mas para
ouvir as promessas com que a encobres... Em ti não mora a verdade, nem o
bem... não, não, não... (_Sae repetindo as ultimas palavras_)
SCENA XI
ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ E RICARDO (Principia a escurecer)
_Electra_
(_consternada, procurando um refugio em Maximo_) Maximo, ampara-me!
Livra-me do terror que me inspira este homem.
_Maximo_
Conta commigo. Não tenhas medo. (_Pega-lhe nas mãos_)
_Marquez_
Começa a escurecer. Vamos.
_Electra_
Vamos... (_Incredula e medrosa_) Então, deveras, sempre vou comtigo?
_Maximo_
Juntos n’esta hora, como o seremos para toda a vida...
_Electra_
Comtigo para sempre? (_Augmenta a escuridão_)
_Ricardo_
(_á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco deslumbrante!
_Marquez_
(_a Ricardo_) A fusão está feita. Creio que se podem apagar os fornos.
_Maximo_
(_com effusão beijando as mãos de Electra_) Minha alma, minha consolação,
minha alegria! comtigo para todo sempre... O que vou dizer aos nossos
tios é que te peço, que te faço minha, que serás a minha mulher e a
mamãsinha dos meus filhos.
_Electra_
(_opprimida, como se a alegria a transtornasse_) Não me enganas?... Virei
a viver sempre com os teus meninos? Serei entre elles a menina maior?...
Serei tua mulher?
_Maximo_
(_com voz forte_) Sim. (_Illuminada a casa do fundo, resplandece com viva
claridade toda a scena_)
_Marquez_
Vamo-nos. É noite.
_Electra_
É o dia!... o meu dia eterno! (_Maximo enlaça-a pela cintura e saem. O
marquez segue-os_)
FIM DO TERCEIRO ACTO
ACTO QUARTO
Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para
o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda,
jogando com a entrada, um corpo de architectura grutesca,
ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção, um banco
de pedra, em angulo, de risco elegante. Jarrões ou plantas
exoticas adornam este terraço, com pavimento de mosaico, entre
o edificio e o solo areado do jardim.
No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores e
macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos em curva.
O da esquerda leva á rua. Cadeiras de ferro. É de dia.
SCENA I
ELECTRA E PATROS, com um cesto de flores que acabam de colher
_Electra_
(_tirando uma carta da algibeira_) Deixa ficar as flores, e aqui tens a
carta.
_Patros_
(_pousando as flores_) Com esta faz trez desde esta manhã!
_Electra_
(_escolhendo as flores mais pequenas com que fórma tres ramilhetes_) São
tantas as coisas que Maximo tem que me dizer, e eu a elle...
_Patros_
Bemdito seja Deus, que da noite de hontem para hoje tanta felicidade lhe
deu, senhorita Electra!
_Electra_
E que depressa, Patros! que rapidamente! como n’um sonho, que tudo
se fez! Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam os tios o dia do
casamento...
_Patros_
E no emtanto, carta para lá, carta para cá... de não acabar nunca...
_Electra_
Que queres? Se desde hontem nos não podemos vêr como companheiros, na
fabrica, porque sômos noivos agora... Temos de nos corresponder por
escrito. Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe das coisas muito
serias que estou impaciente por dizer-lhe. Na das nove e vinte e cinco
recommendava-lhe que se não esquecesse da colhér de xarope que tem de se
dar a Pepito de duas em duas horas... N’esta agora digo-lhe que a tia foi
para a missa e que tem demora... É natural que elle lhe queira falar...
_Patros_
Até ás onze horas de certo que não volta a senhora da egreja...
_Electra_
E ás onze vou eu para a missa com o tio. (_Atando os tres ramilhetes_)
Pronto! Este para elle, estes para cada um dos meninos... Um a cada um
para que não briguem... (_Dispondo-se a compôr o ramo grande_) E agora
o ramo grande para a Senhora das Dôres... Vae, e volta depressa para me
ajudares... Espera resposta—é claro—uma palavra que seja!
_Patros_
Vou de corrida. (_Sae pelo fundo_)
_Electra_
(_escolhendo as mais lindas flores para o grande ramo_) Hoje, minha
querida Mãe Santissima, ha de ser maior a minha offerenda; e a minha
pena é que não seja tão grande que fique sem uma só flôr o jardim dos
tios... Deante da tua santa imagem queria eu hoje collocar todas as mais
lindas coisas da terra: as rosas, as estrellas e os corações amantes...
Virgem Maria! consolação e esperança nossa! não me desampareis, levae-me
ao bem que te pedi, e que hontem á noite me prometteu a expressão dos
teus divinos olhos quando as minhas lagrimas te disseram a gratidão e a
esperança da minha alma...!
_Patros_
(_pressurosa pelo fundo_) Não trago carta, mas trago um recadinho, que
ainda é melhor...
_Electra_
Que vem cá?
_Patros_
Logo que saiam uns senhores, que estavam já a despedir-se... Que a menina
o espere aqui para lhe falar um momento... Tem de ir a uma conferencia
depois...
_Electra_
(_olhando para o fundo_) Virá já?...
_Patros_
Ahi vem.
_Electra_
(_dando-lhe o ramo_) Toma lá... para Nossa Senhora... Para a Nossa
Senhora do meu quarto, bem entendido! Não é para a do altar do oratorio,
toma sentido: é para a da cabeceira da minha cama.
_Patros_
Pois pudera! (_Entra correndo pela escada_)
SCENA II
ELECTRA, MAXIMO, depois o MARQUEZ
_Maximo_
(_a distancia, abrindo um pouco os braços_) Menina!
_Electra_
(_mesma attitude_) Maximo!
_Maximo_
Aqui estamos embaçados, deante um do outro, sem saber que dizer.
_Electra_
Embaçadissimos. Começa tu.
_Maximo_
Tu... para te desacanhares... Dize-me uma grande mentira: que me não amas.
_Electra_
Dize-me primeiro tu uma grande verdade.
_Maximo_
Que te adoro. (_Approximam-se_)
_Electra_
Em paga d’essa mentira toma esta rosa que te escolhi, sem brilho,
pequena, singela, humilde, como eu quero ser para ti.
_Maximo_
Tu tens um grande coração e um alto espirito...
_Electra_
Não tenho; mas gostava de ser ainda mais tôsca e mais informe do que sou
para que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse nada que não fôsse teu.
_Maximo_
Deus fez de ti a sua obra mais preciosa...
_Electra_
E deu-te essa obra, que é apenas o esboço d’uma creatura humana, para que
tu a completes e aperfeiçôes.
_Maximo_
Para que eu a enthronise e a corôe, deixando desenvolver-se d’ella a
immortal flôr de humanidade, que é a simples mulher da casa, forte, pura,
alegre e compadecida. (_Consulta o relogio_)
_Electra_
Tens essa conferencia... Vae á tua obrigação... Não te demorarás muito?
_Maximo_
Virei encontrar-me com a tia quando ella vier da missa.
_Electra_
E o marquez, desde hontem... voltou como tinha dito?
_Maximo_
Deixei-o agora na fabrica a escrever ao tabellião. Incomparavel amigo!...
Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao voltar para casa, o teu romance
paterno... esse romance dos dois capitulos... Indignou-o a intervenção
despotica de Pantoja e de Cuesta na tua vida; e essa lamentavel historia
mais ainda o fortaleceu na firme determinação de defender-nos...
_Electra_
(_surprehendida_) Mas então precisamos ainda de que nos defendam?
_Maximo_
No essencial é claro que não... Mas quem nos assegura que esses dois
homens não tentem oppôr-nos alguns obstaculos de jurisdicção theorica?
_Electra_
(_tranquillisando-se_) D’essa jurisdicção nos riremos nós.
_Maximo_
Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir e de a annullar.
_Marquez_
(_pressuroso pelo fundo_) Então ainda aqui?
_Maximo_
Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o procurador dos nossos negocios
de familia...
_Marquez_
Acceito a procuração... (_Reprehendendo-o com doçura_) Mas, homem, que se
lhe faz tarde!
_Maximo_
Adeus, adeus! até já.
_Electra_
(_vendo-o partir_) Vae, e vem depressa.
SCENA III
ELECTRA E O MARQUEZ
_Marquez_
Ahi está o que é um galan de categoria scientifica... Parabens pelo
achado d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria da sua edade
precisava da alliança de uma razão grave e de um coração firme, como o
d’este homem. É elle, entre quantos eu conheço, o mais perfeitamente
destinado para fazer da minha querida menina uma grande e exemplar mulher.
_Electra_
Fará de mim o que elle quizer que eu seja. (_Com muita curiosidade_) Mas
diga-me, snr. de Ronda, conheceu a primeira mulher de Maximo? Perdôe-me
esta curiosidade, e não extranhe que eu deseje saber da vida toda do
homem que amo.
_Marquez_
Não convivi com ella... Vi-a com Maximo uma ou duas vezes. Era uma
vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente, bôa esposa para um lar
tranquillo mas sem felicidade...
_Electra_
Os paes d’elle sim, conheceu-os muito?
_Marquez_
A mãe nunca a vi. Era uma senhora franceza, de alto merito. Foi em môça
uma das amigas de minha mulher. O pae, Lazaro de Yuste, conheci-o ha
trinta annos em Hispanha e em França. Era homem muito intelligente, bem
parecido, felicissimo em negocios de minas, e não menos afortunado em
negocios de amor. Era falado.
_Electra_
N’esse ponto não se parece com elle o filho, que é a austeridade em
pessôa.
_Marquez_
De certo que sim. O seu futuro marido, minha querida Electra, é o
modelo dos homens, e a honra de uma geração muito mais perfeita do que
infelizmente foi a minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso
magico até é rico... rico pelo que lhe deixou o pae e mais rico ainda
pelo que herdou agora dos tios de França. Que mais quer? Peça por bôca, e
verá como Deus lhe responde: «Menina, não tenho mais que lhe dar.»
_Electra_
(_suspirando_) Ai!... E agora, outra coisa... diga-me, meu querido
Marquez: posso estar socegada?
_Marquez_
Inteiramente.
_Electra_
Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das pessôas que se
julgam com sufficiente auctoridade...
_Marquez_
Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos passageiramente, emquanto nós
não resolvermos encurtar-lhes os vôos.
_Electra_
O snr. de Cuesta...
_Marquez_
Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe falei, e estou certo de que nos
dará o seu mais convicto assentimento.
_Electra_
O snr. de Pantoja...
_Marquez_
Esse ha de resmungar um pouco mais, e pretenderá fazer-nos ouvir as
trombetas biblicas para nos assustar; mas não lhe tenha medo.
_Electra_
Deveras?
_Marquez_
Não vale nada.
_Electra_
Não tenho de que me atterrar quando o encontre?
_Marquez_
Não mais que da importunidade de um mosquito.
_Electra_
Que allivio me dá! (_Com enthusiasmo carinhoso_) Deus lhe pague! Deus o
bemdiga, snr. de Ronda!
_Marquez_
(_muito affectuoso_) Deus será comvosco.
SCENA IV
OS MESMOS E URBANO, vindo de casa, de chapeu na cabeça
_Urbano_
Marquez, bons dias.
_Marquez_
Querido Urbano, posso falar comsigo?
_Urbano_
Não lhe faz differença depois da missa...? (_A Electra_) Então, rapariga,
que vagares são esses? Está a tocar.
_Electra_
Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto, tio. (_Entra correndo em casa_)
SCENA V
MARQUEZ E URBANO
_Marquez_
Temos de pôr dia para o casamento, e de fazer escriptura de consentimento
em regra.
_Urbano_
Será talvez melhor que você trate de tudo directamente com minha mulher.
_Marquez_
Mas, meu amigo, chegou o momento de fazer frente a certas ingerencias que
annullam a sua auctoridade de chefe de familia.
_Urbano_
Meu caro de Ronda, peça-me você que altere, que transtorne todo o systema
planetario, que tire os astros d’aqui assim e que os ponha para acolá;
mas não peça coisa nenhuma que seja contraria ao parecer de minha mulher.
_Marquez_
Homem, isso tambem lá me parece submissão de mais!... Eu pela minha parte
insisto em que devo tratar este negocio particularmente com você e não
com Evarista.
_Urbano_
Vamos á missa e depois falaremos.
_Marquez_
Pois vamos lá, eu tambem vou.
SCENA VI
OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA
_Electra_
(_de chapeu, luvas, livro de missa_) Pronta.
_Urbano_
Vamos. O Marquez vae comnosco.
_Evarista_
(_pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja_) Vão ligeiros.
_Pantoja_
Depressa, se querem chegar.
_Evarista_
O marquez volta?
_Marquez_
Infalibillissimamente, minha senhora.
_Evarista_
Até logo. (_Saem Electra, o marquez e Urbano pelo fundo, á esquerda_)
SCENA VII
EVARISTA E PANTOJA, que com mostras de cansaço e desalento se
atira para o banco da esquerda, primeiro plano.
_Evarista_
Entramos?
_Pantoja_
Perdão: deixe-me respirar por um momento. Na egreja abafava-se... com o
calôr, com o apertão de gente...
_Evarista_
Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... (_chamando_) Balbina!
_Pantoja_
Não, obrigado.
_Evarista_
Uma taça de tilia...
_Pantoja_
Tambem não. (_Na occasião de Balbina sahir, a senhora dá-lhe a mantilha,
que acaba de tirar, e o livro de missa_)
_Evarista_
Não ha motivo, emquanto a mim, para nos affligirmos tanto...
_Pantoja_
Não é, como querem dizer, o meu orgulho; é n’um ponto mais delicado e
mais profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me a consolação e a gloria
de dirigir essa creatura e de a levar commigo pelo caminho do bem. E vejo
com grande magoa que você, tão affecta aos meus principios, e que eu
considerava uma fiel amiga e uma fervorosa alliada, me abandona na hora
critica.
_Evarista_
Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o abandono. Estavamos inteiramente de
accordo, com relação a Electra, em guardal-a por algum tempo—nunca se
tratou de a encerrar para sempre—em S. José da Penitencia, attendendo á
disciplina e purificação d’aquella casa... Mas surge agora repentinamente
esta inesperada veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, não posso de
modo nenhum recusar o meu consentimento... É uma loucura? será... Mas de
Maximo, como homem de honrado e correcto procedimento, que tem que dizer?
_Pantoja_
Nada. (_corrigindo-se_) Isto é: alguma coisa poderia talvez... Mas, por
agora, o que unicamente digo é que Electra não está preparada para o
casamento, não tem aptidão para eleger marido... Não reprovo em absoluto
que se case, quando seja com um homem cujas ideias a não pervertam...
Mas este ponto é para mais tarde... O essencial n’este momento é que
essa tenra creatura entre quanto antes no sagrado asylo, onde nos cumpre
estudar, com o tacto mais subtil e mais carinhoso, a configuração do seu
caracter, as suas predilecções, as suas tendencias, os seus affectos;
e em vista do que observarmos, fundamentadamente e seguramente depois
d’este prévio exame, resolveremos... (_Altaneiro_) Que ha que dizer a
isto?—pergunto eu agora.
_Evarista_
(_acobardada_) O que digo é que para esse plano... na realidade
perfeito... eu não posso, não ouso offerecer-lhe a minha cooperação.
_Pantoja_
(_com arrogancia, passeando_) De modo que, segundo os seus caridosos
principios, se Electra se quer perder, que se perca!... que importa?...
Se ella quer condemnar a sua alma, que a condemne!... Que temos nós com
isso?
_Evarista_
(_com maior timidez, suggestionada_) Perder-se! condemnar-se! E está
porventura na minha mão evital-o?
_Pantoja_
(_com energia_) Está.
_Evarista_
Oh! não... Não tenho a audacia de intervir... E com que direito?...
Impossivel, Salvador, impossivel...
_Pantoja_
(_affirmando mais a sua auctoridade_) Saiba, minha amiga, que o acto
de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a
rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor
na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso
ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje
outro senão o bem d’esta menina?
_Evarista_
(_acobardando-se mais_) Bem sei que é assim.
_Pantoja_
(_com effusão_) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras
do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz
do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me
pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio
paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura
imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que
se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e
purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a
alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista?
_Evarista_
(_abatida_) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu
entendimento.
_Pantoja_
Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço.
_Evarista_
Não posso... (_Senta-se chorosa e abatida_)
_Pantoja_
É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão
profundamente me inspira a mim. (_Empregando suavidades de persuasão_)
Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto
o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se
adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei
amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da
sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e
pelo meu conselho, governará a congregação... (_Com profunda commoção_)
Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim!
(_Fica-se como em extase_)
_Evarista_
Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez
uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana...
Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer
eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de
dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da
maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da
Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o
seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar
n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor,
como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me
revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem.
_Pantoja_
Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado
asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda
mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em
Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se
tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram
o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do
côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente,
considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava.
Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive
o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse
dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque
n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que
eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz
da morte, eu na tempestuosa provação da vida...
_Evarista_
E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador
do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella
santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as
monjas dormem o somno eterno.
_Pantoja_
(_vivamente_) Sabia isso?
_Evarista_
Sabia... E que no claustro, silencioso e florido, entre loendros e
cyprestes...
_Pantoja_
É certo... quem lh’o disse?
_Evarista_
...vagueia, como um propicio phantasma da saudade, o sombrio fundador
d’aquella casa, implorando de Deus o descanço d’ella e o seu.
_Pantoja_
Sim... Ali repousarão tambem os meus pobres ossos. (_Com vehemencia_)
Quero, além d’isso, que assim como em espirito eu me não aparto por um
só momento d’aquella casa, ahi passe tambem, pelo tempo que fôr preciso,
o espirito de Electra... Não a violentarei á vida claustral; mas se,
experimentando essa existencia, e apreciando o seu incomparavel sabor,
ella deliberasse persistir na clausura, eu acreditaria então que Deus
me destinara para a mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas da
peccadora redimida; ali, na candida alvura do seu habito de noviça, a
minha filha; ali eu, pedindo a Deus para ellas a gloria eterna. E na
morte, o escondido e imperturbado repouso na mesma terra amada,—todos os
meus amores commigo e todos nós em Deus...
_Evarista_
(_com viva commoção_) Perfeita grandeza, por certo... Idealidade
incomparavel.
_Pantoja_
Duvída ainda de que o meu pensamento seja o mais elevado? De que me não
move nenhuma paixão ruim?
_Evarista_
Como quer que duvíde?
_Pantoja_
Pois se com effeito lhe parece bello o meu plano, porque me não ajuda a
realisal-o?
_Evarista_
Porque me não considero com poderes para isso.
_Pantoja_
Nem assegurando-lhe eu que a reclusão de Electra terá um caracter
provisorio?
_Evarista_
Nem assim. Não, D. Salvador, não conte commigo... (_luctando com a sua
consciencia_) Reconheço toda a elevação, toda a formosura das suas
ideias... D’ellas sinto um ecco suave e acariciador na minha propria
alma. Mas—que quer, meu bom amigo—vivo no mundo em que Deus me collocou:
tenho tambem para com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, com aquelles
que me rodeiam, á vida social; e na vida da sociedade e da familia o seu
projecto é... como lh’o direi, sem o magoar?... é uma anomalia angelica.
_Pantoja_
(_dissimulando o seu enfado_) Bem. Paciencia... (_Passeia caviloso e
sombrio_)
_Evarista_
(_depois de uma pausa_) Em que pensa? Desiste?
_Pantoja_
(_com naturalidade e firmeza_) Não, minha senhora.
_Evarista_
Qual então o seu projecto?
_Pantoja_
Não sei... Ha de acudir-me uma ideia... Pensarei... (_Resolvendo-se_)
Minha cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever uma carta á superiora
da Penitencia?
_Evarista_
Dizendo-lhe...?
_Pantoja_
Que venha aqui immediatamente, com duas irmãs, n’uma carruagem.
_Evarista_
Porque lhe não escreve directamente?
_Pantoja_
Porque tenho de acudir a outras coisas.
_Evarista_
Quer já?
_Pantoja_
O mais breve possivel...
_Evarista_
Bem. (_Dirige-se para casa_)
_Pantoja_
Peço-lhe que mande a carta sem perda de tempo.
_Evarista_
(_olhando do alto da escada para o jardim_) Creio que elles ahi vem.
_Pantoja_
Depressa a carta, minha cara amiga.
_Evarista_
Vae já... Deus nos inspire a todos. (_Entra em casa_)
_Pantoja_
Lá vou ter. (_Áparte_) Que me não vejam! (_Esconde-se atraz do macisso da
direita junto da escada_)
SCENA VIII
PANTOJA, occulto; ELECTRA, URBANO, MARQUEZ, que voltam da
missa—PATROS, que desce de casa.
_Electra_
(_adeantando-se encontra-se com Patros junto da escada_) Veio?
_Patros_
Não, senhorita. (_Ouve-se o canto afastado dos meninos que brincam no
jardim_)
_Electra_
Morro de impaciencia. (_Tira o chapeu e as luvas, que entrega a Patros
com o livro de missa_) Vou brincar com os pequenos emquanto espero...
Não... Vou apanhar flôres. (_Colhe algumas no macisso da esquerda_)
_Urbano_
(_a Patros_) A senhora?
_Patros_
Em casa.
_Marquez_
Vamos ter com ella.
_Urbano_
Vamos a isso. (_Entram em casa. Patros segue-os_)
_Electra_
(_admirando as flôres que acaba de cortar_) Que lindos, que graciosos
rainunculos! (_Pantoja apparece e Electra assusta-se ao vêl-o_) Ai!
SCENA IX
ELECTRA E PANTOJA
_Pantoja_
Assim te assusto, minha filha?
_Electra_
É verdade... Não posso evital-o... Que quer? Bem sei que não devia, e que
não tenho de que ter medo... Perdôe-me por quem é, D. Salvador... Vou
jogar ao côrro com os pequenos...
_Pantoja_
Um momento. Vaes aos meninos para que elles te dêem da sua alegria?
_Electra_
Não, hoje não; vou repartir com elles da que trasborda da minha alma.
(_Afasta-se o canto de roda dos meninos_)
_Pantoja_
Já sei a causa d’essa grande alegria, já a sei...
_Electra_
Uma vez que sabe, não tenho então que lhe contar. Até logo snr. de
Pantoja.
_Pantoja_
Ingrata! Concede-me um instante...
_Electra_
Um instantinho só?
_Pantoja_
Unicamente.
_Electra_
Bom. (_Senta-se no banco de pedra. Colloca a um lado as flôres e vae
escolhendo aquellas com que se touca, mettendo-as no cabello_)
_Pantoja_
Não sei porque tens reservas commigo sabendo quanto me interesso pela tua
felicidade e pela tua vida...
_Electra_
(_sem olhar para elle, attenta ás flôres_) Pois, se o interessa a minha
felicidade, alegre-se commigo: sou a creatura feliz.
_Pantoja_
Feliz hoje. E amanhã?
_Electra_
Amanhã mais feliz do que hoje... E sempre mais, sempre o mesmo!
_Pantoja_
A alegria verdadeira e constante, o goso perenne e indestructivel só
existem no amor eterno, superior ás inquietações e ás miserias humanas.
_Electra_
(_adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto_) Toca-me outra vez
no antigo registro de que tenho de ser anjo... Sou uma pobre pessoasinha
summamente terrestre, D. Salvador. Deus fez-me para mulher, e botou-me a
este mundo. Já vê que, se estou aqui, é porque elle não precisava de mim
para o ceu n’esta occasião.
_Pantoja_
Ha tambem anjos na terra, minha filha. Anjos são todos aquelles que no
meio das desordens da materia sabem viver a pura vida do espirito.
_Electra_
(_mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. Ouve-se mais perto o
coro dos meninos_) Que tal? não lhe pareço um anjo?
_Pantoja_
Pareces, e quero que o sejas.
_Electra_
Assim me adorno para divertir os meninos. Se visse a graça que elles me
acham! (_Com uma triste ideia subita_) Sabe com que eu me estou parecendo
agora? Com um menino morto. Assim se enfeitam os meninos quando os levam
a enterrar.
_Pantoja_
Para symbolisar a ideal belleza do ceu para onde elles vão.
_Electra_
(_arrancando as flôres_) Não, isso não, não quero parecer menina morta.
Dá-me a ideia de que vem o snr. de Pantoja para me levar á sepultura!
_Pantoja_
Oh! eu não te quero enterrada. Quereria rodear-te de luz. (_Vae
esmorecendo e cessa de todo o côro dos meninos_)
_Electra_
Tambem se põem luzes aos meninos mortos.
_Pantoja_
Não quero a tua morte, quero a tua vida; não a vida inquieta e vulgar,
mas dôce, livre, elevada, amorosa, com um eterno e puro amor divino.
_Electra_
(_Confusa_) E porque é que me deseja tudo isso?
_Pantoja_
Porque te quero muito, com um amor mais excelso que todos os amores
humanos. Melhor comprehenderás a grandeza d’este affecto, dizendo-te que
para evitar-te a mais leve dôr eu tomaria para mim os mais espantosos
tormentos que se possam imaginar.
_Electra_
(_estonteada, sem entender bem_) É o cumulo da abnegação uma coisa
d’essas.
_Pantoja_
Considera agora quanto soffrerei por não poder evitar um desgostosinho,
um dissabor, que te vou dar.
_Electra_
A mim?
_Pantoja_
A ti mesma.
_Electra_
Um desgosto?
_Pantoja_
Desgosto que mais me afflige por ter de ser eu que t’o cause.
_Electra_
(_rebelando-se, levanta-se_) Desgostos! Não os quero. Não os acceito.
Guarde-os. Que ninguem hoje me traga senão alegrias!
_Pantoja_
(_condoído_) Bem quizera dar-t’as, mas não posso.
_Electra_
Que terror que tenho! (_Com subita ideia que a tranquillisa_) Ah! já
sei... Pobre D. Salvador!... É que me quer dizer mal de Maximo... Alguma
coisa que lhe parece mal, mas que a mim me parece bem... Escusa de se
cançar porque nem me convence nem o acredito. (_Precipitando-se na
emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja fale_) Maximo é o maior
e o melhor homem do mundo, é o primeiro, e todo aquelle que me disser
uma palavra contraria a esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, e
detesto-o...
_Pantoja_
Por Deus, minha filha! Não te arrebates assim... Ouve. Eu não digo
mal de ninguem, nem dos que me odeiam. Maximo é bom, é trabalhador, é
intelligentissimo... Que mais queres?
_Electra_
(_satisfeita_) Assim, continue assim... Vae dizendo muito bem.
_Pantoja_
Digo mais ainda: que podes amal-o, que deves amal-o...
_Electra_
(_com alegria_) Ah!
_Pantoja_
Amal-o entranhadamente... (_Pausa_) A culpa não é d’elle, não é...
_Electra_
(_assustada outra vez_) Querem vêr que ainda acaba por lhe attribuir
maldades?
_Pantoja_
A elle não.
_Electra_
Então a quem? (_Recordando-se_) Ah! adivinho: o snr. de Pantoja e o pae
de Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem me disseram já que esse
senhor de Yuste, honradissimo nos seus negocios, foi, talvez, um pouco
demais galanteador e mundanario... Mas que me importa isso?
_Pantoja_
Pobre innocente! não sabes o que dizes.
_Electra_
Digo que esse excellente homem...
_Pantoja_
Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o tenho de associar a sua triste memoria á
de uma pessoa que já não vive... muito querida de ti...
_Electra_
(_comprehendendo e não querendo comprehender_) De mim!
_Pantoja_
Que morreu, e a quem tu muito queres. (_Pausa. Olham um para o outro_)
_Electra_
(_com terror e em voz apenas perceptivel_) Minha mãe! (_Pantoja faz um
signal affirmativo_) Minha mãe! (_Attonita, desejando e temendo uma
explicação_)
_Pantoja_
Chegaram os dias de perdão. Perdoemos.
_Electra_
(_indignada_) Minha mãe, a minha pobre mãe! Não falam d’ella senão para
a deshonrar, para a denegrir... E ultrajam-a aquelles mesmos que a
envilleceram! Pudesse eu tel-os a todos na mão para os desfazer, para os
destruir, para não deixar d’elles nem uma migalha assim!
_Pantoja_
Terias que principiar por Lazaro Yuste.
_Electra_
O pae de Maximo!
_Pantoja_
O primeiro depravador da desgraçada Eleuteria.
_Electra_
Quem é que o diz?
_Pantoja_
Quem o sabe.
_Electra_
E... (_Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve a expôr a sua ideia_)
_Pantoja_
Triste de mim!... Não deveria falar-te d’isto. Dera para o esconder todos
os dias que me restam de vida. Comprehenderás que não podia ser... O meu
amor por ti ordena-me que fale.
_Electra_
(_angustiada_) Meu Deus! e ter eu de ouvil-o!
_Pantoja_
Disse eu que foi Lazaro Yuste...
_Electra_
(_tapando os ouvidos_) Não quero, não quero ouvir.
_Pantoja_
Tinha então tua mãe a edade que tens agora: desoito annos...
_Electra_
Não acredito, não acredito...
_Pantoja_
Era uma jovem senhora encantadora, quasi uma creança, que supportou com a
mais corajosa dignidade o horror d’aquella vergonha...
_Electra_
(_rebelando-se com energia_) Cale-se! Cale-se!
_Pantoja_
A vergonha do nascimento de Maximo.
_Electra_
(_apavorada, com o rosto demudado, recua cravando os olhos em Pantoja_)
Ah!
_Pantoja_
Procurando com discrição attenuar a affronta da sua victima, Lazaro
occultou o menino e levou-o misteriosamente comsigo para França.
_Electra_
A mãe de Maximo foi uma senhora franceza: Josephina Perret.
_Pantoja_
Mãe adoptiva.
_Electra_
(_tapando os olhos com ambas as mãos_) Divino Jesus! É o ceu que desaba...
_Pantoja_
(_condoído_) Filha da minha alma, volve para Deus os teus olhos.
_Electra_
(_demudada_) É um sonho... Tudo o que estou vendo é illusão, é mentira.
(_Olhando espantadamente para uma parte e para outra_) Mentira estas
arvores, esta casa, este ceu... Mentira tu! tu! tu, que não existes,
monstro d’um pesadelo horrivel!... (_Com os punhos na cabeça_) Acorda,
desgraçada, acorda!
_Pantoja_
(_tentando socegal-a_) Electra, querida Electra! Pobre innocente!
_Electra_
(_com um grito d’alma_) Mãe, minha mãe!... A verdade, dize-me a
verdade... (_Fóra de si percorre a scena_) Onde estás, mãe?... Quero
a morte ou a verdade... Minha mãe! minha mãe!... (_Sae pelo fundo,
perdendo-se na longinqua espessura das arvores. Ouve-se proximo o canto
dos meninos jogando ao côrro_)
SCENA X
PANTOJA, URBANO, MARQUEZ, vindos de casa, á pressa. Depois
d’elles BALBINA E PATROS
_Urbano_
Que é?
_Marquez_
Ouvimos gritar Electra.
_Balbina_
Foi a correr pelo jardim.
_Patros_
Por aqui. (_As duas creadas assustadas correm e internam-se no jardim_)
_Marquez_
(_olhando por entre as arvores_) Lá vae correndo... Continúa a gritar...
Pobre Electra! (_Adeanta-se para o jardim_)
_Urbano_
Que foi isto?
_Pantoja_
Eu lh’o direi... Um momento... Providenciemos antes de mais nada...
_Urbano_
O quê?
_Pantoja_
(_procurando coordenar as suas ideias_) Deixe-me pensar... Trazel-a para
casa já... Ir buscal-a... Vá!
_Urbano_
(_olhando para o jardim_) Lá está já o meu sobrinho...
_Pantoja_
(_contrariado_) Em que má hora!
_Urbano_
Correm para elle os meninos... Parece que o informam... Electra
foge-lhe... Não o quer vêr... Mette-se na gruta... O Marquez intervem...
Pobre Maximo!
_Pantoja_
Vá! vá ter com elles!... Não deixe que Maximo intervenha...
_Urbano_
Que balburdia! (_Interna-se no jardim_)
_Pantoja_
Se eu podesse... (_hesitante em ir e não ir_)
_Balbina_
(_voltando pressurosa do jardim_) Pobre menina! Chama aos gritos pela sua
mãe... Sentou-se agarrada aos meninos á porta da gruta, e ninguem a tira
d’ali...
_Pantoja_
E Maximo?
_Balbina_
Muito inquieto, sem saber o que ha de fazer, como todos nós... Vou chamar
a senhora...
_Pantoja_
Não, não vá. Já chegaram a senhora superiora e as irmãs de S. José?
_Balbina_
Já, sim senhor, chegaram agora.
_Pantoja_
Não diga nada á senhora. Vá para casa e espere por mim.
_Balbina_
Sim, senhor. (_Sobe para casa_)
_Pantoja_
(_indeciso e como assustado_) Não sei que faça... Pela primeira vez na
minha vida hesito... Irei?... Esperarei aqui? (_resolvendo-se_) Vou. (_A
poucos passos encontra-se com Maximo, agitado e colerico, que vem do
jardim e o detem_)
SCENA XI
PANTOJA E MAXIMO
_Maximo_
(_ardentemente em toda a scena_) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que
d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no
delirio em que está.
_Pantoja_
(_perturbado_) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra...
_Maximo_
Foi mordida pelo monstro.
_Pantoja_
Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta
de factos e que se chama a Historia. (_Querendo ir-se_) Adeus.
_Maximo_
(_agarrando-o fortemente por um braço_) Espere. Primeiro vae repetir
aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro
da Historia...
_Pantoja_
(_sem saber que dizer_) Eu... convém assentar préviamente que...
_Maximo_
Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa...
Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão...
Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente.
Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo.
_Pantoja_
Para mim é mais: é o ceu e a terra.
_Maximo_
Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta,
urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos
eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se
envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima
mulher? Que responde?
_Pantoja_
Nada.
_Maximo_
(_acommette-o explodindo em colera_) Pois por esse infame silencio,
mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no
mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra
desfere o raio que nos aniquilla; (_agarra-o pela garganta e derriba-o no
banco_) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula,
Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o
que sejas!
_Pantoja_
(_recobrando alento_) Que brutalidade! que infamia! que demencia!
_Maximo_
Bem sei. Estou doido... (_Recompondo-se_) E quem é que dispõe assim do
poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera
insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho,
incapaz de responder á força com a força?
_Pantoja_
(_tomando aprumo_) Com a força te respondo. (_Voltando á sua condição
normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa_) Tu és a força do
musculo, eu a força da alma. (_Maximo olha para elle, attonito e
confuso_) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas?
_Maximo_
De que póde mais?
_Pantoja_
A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido,
recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu,
Maximo, tremes!
_Maximo_
É a ira. Não a provoque.
_Pantoja_
Nem a provoco nem a temo. (_Cada vez mais senhor de si_) Tu maltratas-me.
Eu perdôo-te.
_Maximo_
Que me perdôa a mim! (_iracundo_) Mas é para o homicidio que assim me
empurra!
_Pantoja_
(_com serena e fria gravidade, sem jactancia_) Enfurece-te, grita,
bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana
que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho.
Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna.
Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que
está aqui (_na sua mente_) é indestructivel. Na minha vontade só um poder
impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia
que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna.
_Maximo_
Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem
ternura, nem compaixão.
_Pantoja_
O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por
qualquer caminho que se me depare.
_Maximo_
(_aterrado_) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o
da Bondade Humana. (_Com exaltação_) Deus do ceu! tu não pódes permittir
que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que
á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não
permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a
maquina do Universo destruida e aniquillada.
_Pantoja_
Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas.
_Maximo_
Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos.
_Pantoja_
Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te.
_Maximo_
Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (_Segura-o vigorosamente por um
braço_) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece
as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi
morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria
de minha mãe.
_Pantoja_
(_depois de o encarar fixamente_) Vamos. (_Ao darem os primeiros passos
sae Evarista de casa_)
SCENA XII
OS MESMOS, EVARISTA E PATROS. Atraz d’Evarista a superiora e as
duas irmãs de S. José
_Evarista_
Que succedeu, Maximo?... Que colera é essa?
_Maximo_
É este homem que me enlouquece... Venha, tia, venha tambem comnosco...
(_Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado_) Que mulheres são aquellas?
Que querem essas senhoras? (_Chega Patros do jardim, correndo_)
_Patros_
(_pesarosa, choramigando_) Minha senhora, a senhorita enlouqueceu...
Corre, foge, desapparece, chamando em gritos por sua mãe... Não quer que
a consolem... não ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem!
_Evarista_
(_caminhando para o jardim_) Filha da minh’alma!
_Maximo_
(_olhando para o jardim_) Ahi vem. (_Larga Pantoja e dirige-se a ella_)
_Patros_
O senhor e o snr. Marquez conseguiram convencel-a e trazem-a para casa...
(_Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. Junto d’elles,
Maximo. Ao vêr os que estão em scena Electra oppõe alguma resistencia.
Suave e carinhosamente a obrigam a approximar-se. Traz o cabello e o seio
adornado de flôrzinhas_)
SCENA XIII
ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO, MARQUEZ E PATROS
(Conservam-se na scena a superiora e as irmãs)
_Evarista_
Deliras, minha pobre filha!
_Maximo_
Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu carinho será a tua razão.
_Electra_
(_afasta-se de Maximo com um movimento de pudor. O seu delirio é sereno,
sem gritos, sem risadas. Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada
e melancolica_) Não te approximes. Não te pertenço. Já não sou tua.
_Maximo_
Porque me foges? para onde vaes sem mim?
_Pantoja_
(_que passou para a direita, junto de Evarista_) Para a eterna verdade,
para a inalteravel paz.
_Electra_
Vou por minha mãe. Sabem onde está minha mãe?... Vi-a no côrro dos
meninos... Foi depois até a mimosa que está á entrada da gruta... E eu a
seguil-a sem a alcançar... Olhava para mim e fugia... (_Ouve-se ao longe
o canto dos meninos_)
_Marquez_
Aqui está Maximo... Olhe... É o seu noivo.
_Maximo_
(_vivamente_) Serei o teu marido... Ninguem se oppõe, e não ha força
nenhuma que o empeça, Electra, minha vida.
_Electra_
(_impondo silencio_) Quem fala aqui de noivos e noivas? Quebradas as
festas do noivado: não ha bôda... Que tristeza a da minha alma!... Só ha
padres com tochas a rezar por defuntos... Que grande é o mundo, e que só
que está! que vazio!... Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens negras,
que são illusões, as illusões que foram minhas e não são de ninguem
agora... as illusões sem dôno!... Que solidão!... Tudo escurece, tudo
chora... Vae acabar o mundo... vae acabar. (_Com arrebatamento de medo_)
Quero fugir, quero-me esconder. Não quero padres, não quero tochas, não
quero officios... Quero ir para a minha mãe... Onde m’a enterraram?...
Levem-me á pedra da sua campa, e ali juntas, nós ambas, minha mãe e eu,
lhe direi as penas da minha alma, e ella me dirá verdades... verdades!
_Pantoja_
(_áparte, a Evarista_) É a occasião. Aproveitemol-a.
_Evarista_
Vem, minha filha, nós te levaremos á quietação e á paz.
_Maximo_
Não: o descanso e a razão estão aqui. Electra é minha... (_Evarista
procura leval-a_) Exijo-a.
_Electra_
Adeus, Maximo... Já te não pertenço: pertenço á minha dôr... A minha mãe
chama-me para o seu lado... (_Extactica, anciosa, prestando uma attenção
intensissima_) Ouço-lhe a voz...
_Maximo_
A voz!
_Electra_
Silencio, que me chama! (_delirando de alegria_) que está chamando por
mim!
_Evarista_
Torna a ti, meu amor!
_Electra_
Não ouviram? Não ouvem?... Lá vou, mamãsinha, lá vou! (_Corre para o alto
da escada_) Vamo-nos! (_A Maximo, que quer seguil-a_) Eu só... É por mim
só que chama. Tu não... Para estar sósinha commigo... Não ouves a voz
d’ella dizendo: Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou falar-lhe...
(_Vae entrando na casa com Evarista e Pantoja_)
_Maximo_
Que iniquidade e que horror! Para m’a roubarem, enlouqueceram-na. (_Quer
desprender-se dos braços de Urbano e do marquez_)
_Marquez_
(_contendo-o_) Não enlouqueças tambem tu.
_Urbano_
Socega!
_Marquez_
Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos!
_Maximo_
Amarrem-me! Levem-me manietado para a solidão, para a sciencia, para a
verdade. Este mundo incerto, mentiroso e iniquo, não é para mim!
FIM DO QUARTO ACTO
ACTO QUINTO
Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes.
Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro.
SCENA I
EVARISTA E SOROR DOROTHÊA
_Evarista_
(_entrando com a freira_) D. Salvador...?
_Dorothêa_
Chegou ha um momento: está no escritorio com a superiora e com a madre
escrivã.
_Evarista_
Então Urbano lá irá ter com elle... Emquanto esperamos, dê-me noticias de
Electra... Foi muito feliz a escolha que fizeram de si, irmã Dorothêa—tão
sympathica e tão dôce—para a acompanhar, para viver com ella, para ser a
sua amiga e a sua confidente...
_Dorothêa_
Electra não me quer mal, e é talvez certo que por essa razão algum tanto
contribuirei para a socegar.
_Evarista_
(_aponta para a cabeça_) E como está ella de...?
_Dorothêa_
Bem. Recuperou inteiramente a razão, e não tem nenhum vestigio de
delirio, a não ser ainda aquella ideia fixa de querer vêr a mãe, de lhe
falar, de ter d’ella a solução das suas dúvidas. Todo o tempo que tem
livre das obrigações religiosas, e todo o que póde alcançar, o passa
no pateo do nosso cemiterio, e na horta contigua; e tanto ahi como no
dormitorio, sempre a mesma preoccupação a absorve.
_Evarista_
E lembra-se de Maximo? fala d’elle?
_Dorothêa_
Fala: mas nas suas meditações e nas suas rezas a ideia que mais acaricia
é de poder amal-o como um irmão, e, pelo que ainda hoje me disse, espera
conseguil-o.
_Evarista_
Mas é uma ideia apenas! É preciso que a essa ideia se associe o
coração... E bem poderia ser que assim succedesse se a desgraça de antes
d’hontem não viesse alterar o seguimento dos factos...
_Dorothêa_
Uma desgraça!...
_Evarista_
Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo Cuesta...
_Dorothêa_
Não sabia...
_Evarista_
Que immensa tristeza para todos nós! Ha dias que se sentia mal, e
presagiava o seu fim. Sahiu na segunda feira muito cêdo, e na rua perdeu
os sentidos. Levaram-o para casa, e ás tres horas da tarde estava morto.
_Dorothêa_
Pobre senhor!
_Evarista_
No testamento nomeia Electra herdeira de metade da sua grande fortuna...
_Dorothêa_
Ah!
_Evarista_
Mas coma expressa condição de que ella abandone a vida religiosa. Sabe se
D. Salvador já terá conhecimento d’isto?
_Dorothêa_
Supponho que sim, porque elle tem conhecimento de tudo, e adivinha o que
não conhece.
_Evarista_
E é verdade!
_Dorothêa_
(_vendo chegar Urbano_) O snr. D. Urbano.
SCENA II
AS MESMAS E URBANO
_Evarista_
Falaste-lhe?
_Urbano_
Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio, com um tino, com uma fixidez
d’attenção, que me assombram. Que homem!
_Evarista_
Já teve noticia das ultimas disposições do pobre Cuesta?
_Urbano_
Já.
_Evarista_
Está contrariado?
_Urbano_
Se está não o mostra. Bem sabes que nem nos casos mais difficeis elle
deixa transparecer as suas commoções...
_Evarista_
(_interrompendo-o com enthusiasmo_) É um espirito d’aguia, que paira
acima de todas as tempestades da terra.
_Urbano_
Interrogando-o a respeito das esperanças que tinha de conservar Electra
no convento, respondeu-me singelamente com uma serenidade pasmosa:
«Confio em Deus».
_Evarista_
Que grandeza d’alma! E sabe que Maximo e o Marquez são os testamenteiros?
_Urbano_
Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma carta d’elles annunciando-lhe que
virão esta tarde, acompanhados d’um tabellião, inquirir a menina, para
que declare se acceita ou se renuncia a herança.
_Evarista_
E á vista d’essa communicação...?
_Urbano_
Nada: imperturbavel, como sempre, repetindo a sua conhecida formula, que
o pinta n’um traço: «Confio em Deus».
SCENA III
OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ (pela esquerda)
_Marquez_
Esperaremos aqui.
_Maximo_
(_vendo Evarista_) Adeus, tia. (_Sauda-a com affecto_)
_Evarista_
(_respondendo ao cumprimento do marquez_) Então, Marquez... Ha finalmente
esperanças de ganhar a batalha?
_Marquez_
Não sei... Luctamos com féra de muito ardil.
_Evarista_
E a ti, Maximo, que te parece?...
_Maximo_
Que estamos em frente d’um terrivel mestre consummado no embuste. Mas eu
confio em Deus.
_Evarista_
Tambem tu...?
_Maximo_
Naturalmente: em Deus confia todo aquelle que crê na verdade. Combatemos
pela verdade. Como poderiamos suppôr que Deus nos abandone? Não poderia
ser, querida tia.
_Urbano_
Não viste Electra quando atravessaste os claustros?
_Maximo_
Não vi.
_Dorothêa_
(_approximando-se da janela_) Vae passar agora. Vem do cemiterio.
_Maximo_
(_correndo para a janela com Urbano_) Que triste! e que bella! A brancura
do habito dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição. (_chamando-a_)
Electra!
_Urbano_
Cala-te.
_Maximo_
Não posso. (_Volta a olhar_) É então certo que vive... É ella que vae ali
na sua realidade primorosa, ou é uma imagem mystica que se despegou d’um
retabulo d’altar para andar pela terra?... Lá volta para traz... levanta
os olhos para o ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se como uma
sombra, não me admiraria... Põe os olhos no chão... Pára... Em que estará
pensando? (_Continua a contemplar Electra_)
_Marquez_
(_que ficou no proscenio com Evarista_) ...Sim, minha senhora: falso,
falsissimo!
_Evarista_
Olhe o que affirma, marquez...
_Marquez_
Affirmo que ou o veneravel D. Salvador se equivoca, ou que disse,
sabendo-o, o contrario da verdade, movido de razões e fins, que não
penetram as nossas limitadas intelligencias.
_Evarista_
É impossivel, marquez... Faltar á verdade um homem tão justo, de tão pura
consciencia, de ideias tão altas!
_Marquez_
E quem nos diz, minha cara amiga, que nos arcanos d’essas consciencias
exaltadas não ha uma lei moral, cujas subtilezas estão longe do nosso
mesquinho alcance? Ha absurdos na vida do espirito como os ha na
natureza, onde vemos inumeros phenomenos cujas causas não são as que se
figuram.
_Evarista_
Não: não posso crer! Ha talvez casos em que a mentira aplana o caminho do
bem. Mas não estamos n’um caso d’esses... Eu por mim, não acredito.
_Marquez_
Para que possa formar o seu juizo, ouça o que lhe vou dizer. A marqueza,
Virginia, assegura-me que de Josephina Perret—sem que n’isto possa haver
mistificação nem equivoco—nasceu este homem que ahi está... E Evarista,
amiga intima de Josephina Perret, prova e demonstra esse facto da
maneira mais simples, mais clara e mais positiva. Além d’isso, eu mesmo
pude comprovar que Lazaro Yuste viveu longe de Madrid desde 1863 até 1866.
_Evarista_
Com tudo isso, marquez, não posso convencer-me de que...
_Marquez_
(_vendo entrar Pantoja pela direita_) Ahi vem elle.
_Maximo_
(_descendo ao proscenio_) Chega o abutre.
_Dorothêa_
Se me dão licença retiro-me. (_Sae pela esquerda. Pantoja permanece um
instante junto da porta_)
SCENA IV
EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA
_Pantoja_
(_adeantando-se vagarosamente_) Meus senhores, desculpem-me tel-os feito
esperar.
_Maximo_
Prevenido do objecto da nossa visita, creio que será inutil expol-o...
_Marquez_
(_benignamente_) Não o repetiremos para não mortificar o snr. de Pantoja,
que deve a estas horas considerar perdida a sua inutil campanha.
_Pantoja_
(_sereno, sem jactancia_) Eu não perco nunca.
_Maximo_
Será adeantar muito.
_Pantoja_
E asseguro que Electra, tendo aprendido já a desprezar os bens da terra,
não acceitará o legado.
_Evarista_
Já vês que este homem não se rende.
_Pantoja_
Não me rendo... nunca, nunca.
_Maximo_
Estou vendo. (_Sem poder dominar-se_) É então preciso matal-o?
_Pantoja_
Venha a morte.
_Marquez_
Não chegaremos a tanto.
_Pantoja_
Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me sempre impassivel e estavel, no
meu posto.
_Marquez_
Confiamos na lei.
_Pantoja_
Eu em Deus. E digo aos representantes da lei que Electra, adaptando-se
facilmente a esta vida de pureza, libando já as doçuras ineffaveis da
oração e da paz em Deus, não abandonará esta santa casa.
_Maximo_
(_impaciente_) Podemos falar-lhe?
_Pantoja_
N’este momento, precisamente, não.
_Maximo_
(_querendo protestar_) Oh!
_Pantoja_
Socegue.
_Maximo_
Não posso.
_Evarista_
É a hora do côro. Quer D. Salvador dizer, por certo, que depois da hora...
_Pantoja_
Está claro que sim. E para que se convençam de que nada temo, podem
trazer além do tabellião, o snr. delegado do governo. Mandarei abrir
a portaria... Permittirei que falem emquanto queiram com Electra. E se
depois d’isso ella quizer sahir, que sáia...
_Marquez_
Cumprirá o que diz?
_Pantoja_
Como não? se é em Deus unicamente que confio.
_Marquez_
Voltaremos logo. (_Toma o braço de Maximo_)
_Pantoja_
E nós para a egreja. (_Saem Urbano, Evarista e Pantoja_)
SCENA V
MARQUEZ E MAXIMO, que percorre a scena muito agitado,
impaciente, receioso
_Marquez_
Que diz a isto, Maximo?
_Maximo_
Que este homem, de tão superior talento para fascinar os debeis e para
zombar dos fortes, nos enlouquecerá a todos. Eu não sou para isto.
Em luctas de tal ordem, vontade contra vontade, sinto-me arrastado á
violencia.
_Marquez_
E que faz tenção de fazer?
_Maximo_
Leval-a embora. A bem ou a mal. Por vontade ou á força. Se não tiver
bastante poder para isto, adquiril-o, compral-o; trazer amigos,
cumplices, um esquadrão, um exercito... (_Com crescente fervor_) Renascem
em mim os rancores dos antigos bandos, com toda a ferocidade romantica do
feudalismo.
_Marquez_
Assim pensa, e assim o diz, um homem de sciencia!
_Maximo_
Os extremos tocam-se. (_Exaltando-se mais_) Para esse homem, para esse
monstro não ha argumentos, não ha raciocinios... É preciso matal-o.
_Marquez_
Nem tanto, nem tanto, meu querido! Imitemol-o, sejamos como elle astutos,
insidiosos, perseverantes.
_Maximo_
(_com brio e eloquencia_) Não: sejamos como eu... sinceros, claros,
valorosos. Marchemos de cabeça alta e de cara descoberta para o inimigo.
Destruamol-o, ou deixemo-nos destruir por elle... Mas d’uma vez, de uma
só investida, de um só golpe... Ou elle ou nós.
_Marquez_
Não, Maximo. Temos de ir com tento. Temos de respeitar a ordem social em
que vivemos.
_Maximo_
A ordem social em que vivemos envolve-nos em uma rede de mentiras e de
argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados, sem defeza alguma...
presos de garganta, e de pés e mãos, nas malhas de milhares e milhares
de leis capciosas, de vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas,
corrompidas.
_Marquez_
Socega. Preparemo-nos para o que esta tarde nos espera. Temos de prever
os obstaculos para pensar com tempo no modo de os vencer... Que succederá
quando dissermos a Electra que a mãe do seu noivo é com effeito e fóra de
toda a dúvida Josephina Perret e não Eleuteria Dias?
_Maximo_
Que ha de succeder? Que não o acreditará, porque na sua mente se
petrificou o erro e será já tarde para o desarraigar. Pois não se sabe
o que pode a suggestão contínua? O que póde o insinuante e invasivo
ambiente de uma casa como esta sobre as ideias dos que a habitam?
_Marquez_
Empregaremos meios efficases.
_Maximo_
(_com violencia_) Quaes? Deitar fogo ao convento, deitar fogo a Madrid...
_Marquez_
Não divagues. Se Electra não quizer sahir, leval-a-hemos á força.
_Maximo_
(_muito vivamente até o fim_) Ou uma força triumphante, ou uma
desesperação de vencido... morrer eu, morrer ella, morrermos todos.
_Marquez_
Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos para a peor solução. Tenho
uma chave para entrar no claustro pela Rua Nova, e a irmã Dorothêa
pertence-me... Caluda!
_Maximo_
Violencia!
_Marquez_
Subtilesa e astucia!
_Maximo_
Adeante, de pronto, e pelo caminho direito!
_Marquez_
Não, homem, de vagar, com geito, e pelo atalho enesgado! (_Tomando-lhe
o braço_) E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos suspeitos...
(_Levando-o_)
_Maximo_
Sim, vamo-nos.
_Marquez_
Confia em mim.
_Maximo_
Confio em Deus.
MUTAÇÃO
Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja,
com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade
interior. Á esquerda grande portada por onde se passa a outro
claustro, que se suppõe communicar com a rua. Ao fundo, entre a
egreja e as construcções da esquerda, grande arco abatido, para
lá do qual se vê em ultimo plano o cemiterio da congregação. É
noite escura.
SCENA VI
ELECTRA E SOROR DOROTHÊA
_Dorothêa_
Tão certo como ser noite, vieram dois sujeitos ao convento com proposito
de te arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. Não o crês?
_Electra_
Sem que me digas quem são, o meu coração o adivinha: Maximo e o marquez
de Ronda... Se é certo que projectam levar-me é enorme a perturbação que
me causam. Desde que entrei n’esta santa casa emprehendi, como sabes, a
grande batalha do meu espirito. Procuro, humildemente e com a ajuda de
Deus, transformar em amor fraternal o amor de uma natureza bem diversa
que arrebatou a minha alma... Converter o ardente fogo do sol numa fria
claridade da lua... O constante meditar, lento mas progressivo, o desmaio
do coração, e as ideias submissas e dôces que Deus me envia vão-me dando
forças para vencer.
_Dorothêa_
Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza d’esse novo amor, porque tens
mêdo de te encontrar com D. Maximo de Yuste?
_Electra_
Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno ganho o perderia n’um só
instante.
_Dorothêa_
(_incredula_) E achas, em tua verdade, que tenhas algum terreno ganho?...
_Electra_
Oh! sim, algum... não muito por emquanto.
_Dorothêa_
Talvez, irmã Electra, que o vêr essa pessoa te demonstre se
effectivamente podes...
_Electra_
(_vivamente_) Oh! não m’o digas, que não posso!... No estado em que me
sinto, n’este principio de lucta, se o visse, se o ouvisse, eu perderia
toda a esperança de paz... Não vês que em minha consciencia eu me estou
debatendo contra dois impossiveis: não poder amal-o como esposo; não
poder amal-o como irmão? (_Aterrada_) Que supplicio, meu Jesus!... Para
o mundo não, não... Prefiro estar aqui, n’esta solidão de morte, n’este
laboratorio da minha alma, junto do cadinho divino, em que estou fundindo
um viver novo.
_Dorothêa_
Não esperes que as tuas ideias te deem a paz. Confia em Deus e n’aquelles
que Deus te envia... (_Resolvendo-se a falar mais claramente_) Não te
amedrontes assim perante o que suppões teu irmão. Alguem talvez negará
que o seja.
_Electra_
(_em grande excitação_) Cala-te! Cala-te! Em assumpto de tão grande
melindre toda a palavra que não contenha a certeza é inutil e cruel...
Póde levar-me á loucura. O que eu peço a Deus é a morte, ou a verdade
inteiramente indubitavel e definitiva.
_Dorothêa_
Socega, pobre Electra...
_Electra_
(_exaltando-se cada vez mais_) Todas as confusões que me atormentaram
ao vir para aqui estão renascendo no meu espirito... Atropelam-se-me no
pensamento anjos e demonios... Deixa-me... Eu quero fugir de mim mesma...
(_Corre a scena em grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando
acalmal-a_)
_Dorothêa_
Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento vae ter fim. (_Olha com
anciedade para a porta da esquerda_)
_Electra_
(_parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua_) Ouve... Minha mãe que me chama.
_Dorothêa_
Não delires... Outras vozes, vozes de pessoas vivas, te chamarão.
_Electra_
É minha mãe... Silencio!... (_Escutando. Entra Pantoja pela direita_)
SCENA VII
ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA
_Pantoja_
Minha filha, como sahiste da egreja sem que eu te visse?
_Dorothêa_
Sahimos para respirar ao ar livre. Electra asfixiava. (_Áparte_)
Approxima-se a hora... Deus nos ajude!
_Pantoja_
Sentes-te mal, minha filha?
_Electra_
(_com voz assustada e sumida_) A minha mãe chama por mim.
_Pantoja_
(_pegando-lhe carinhosamente na mão_) A dôce voz da tua mãe, falando-te
em espirito te dará conforto, prendendo-te com piedade e amôr a este
sagrado refugio. (_Ouve-se passando na egreja o côro das noviças_) Ouve,
Electra... É a voz dos anjos que te chamam do ceu.
_Electra_
(_delirante_) É o côro dos meninos a brincar. E entre essas vozes ternas,
distingo a de minha mãe chamando-me da sepultura.
_Pantoja_
Estás allucinada. É o divino côro dos anjos.
_Electra_
Não, não ha anjos... Ouço o meu nome, ouço o bulicio dos meninos, que
revolve toda a minha alma. São os filhos dos homens que fazem a alegria
da vida. (_Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças_)
_Pantoja_
(_inquieto_) Irmã Dorothêa, diga á irmã porteira que vigie a porta da Rua
Nova e a da Ronda. (_Á esquerda e á direita_)
_Dorothêa_
Sim, meu senhor...
_Pantoja_
Mas não; irei eu mesmo... Não me fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar
todo o claustro, todas as passagens, todos os recantos da casa.
(_Assustado, julgando ouvir ruido_) Escute... Não ouvio?
_Dorothêa_
Quê?... Não ouvi nada... É illusão.
_Pantoja_
Pareceu-me ouvir um rumor de vozes... e bater n’uma porta ao longe.
(_Escuta_)
_Dorothêa_
De que lado? (_Olhando para o fundo á direita_)
_Pantoja_
Na direcção da enfermaria... Não estou socegado... Quero vêr eu mesmo...
Electra, volta para a egreja... Leve-a, irmã Dorothêa... Esperem-me lá...
(_Dando-lhes pressa_) Andem... (_Acompanha-as até á porta da egreja. Sae
pressuroso, inquieto, pelo fundo, á direita. Dorothêa vê-o afastar-se,
pega na mão de Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena.
Electra, sem vontade, deixa-se levar_)
SCENA VIII
ELECTRA E SOROR DOROTHÊA
_Dorothêa_
Vem commigo... Para a egreja não.
_Electra_
Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me viver.
_Dorothêa_
(_aparte, inquieta_) É a hora dada pelo marquez de Ronda... Aproveitemos
os minutos, os segundos, ou tudo está perdido. (_Olhando para a
esquerda_) Vou dar-lhes entrada para este claustro... (_Alto_) Irmã
Electra, espera-me aqui.
_Electra_
(_assustada_) Onde vaes? (_Pega-lhe no braço_)
_Dorothêa_
(_com decisão, defendendo-se_) Tratar de ti, dar-te a saude e dar-te a
vida... Prepara-te para sahir d’este sepulcro, e leva-me comtigo.
_Electra_
(_tremula_) Irmã Dorothêa... não me deixes.
_Dorothêa_
Este momento decide da tua sorte... Volverás ao mundo... verás Maximo.
_Electra_
Quando?
_Dorothêa_
Já... Vaes vêl-o entrar por ali... (_Esquerda_) Animo!... Não me
estorves... Não te movas d’aqui. (_Sae correndo pela esquerda_)
_Electra_
Meu Deus! Virgem Santissima!... Será certo?... Por aqui... por aqui
virá... (_Julga vêr Maximo na escuridão_) Ah! é elle... Maximo! (_Falando
como em sonhos, desviando-se como d’um ser real_) Pára... Deixa-me...
Não posso amar-te como irmão, não posso... Está no fogo o cadinho em
que quero fundir um coração novo... Não vês que não posso levantar os
olhos para ti?... Para que me fitas d’esse modo, se me não pódes levar
comtigo?... É aqui que eu procuro a verdade. Minha mãe chama por mim...
(_Com accento desesperado_) Mãe! mãe! (_Volta-se de frente para o fundo.
Ao soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a sombra de Eleuteria,
formosa figura em habito de monja. Electra de costas para o publico,
contempla-a com os braços cruzados no peito_) Oh! (_Grande pausa_)
SCENA IX
ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA, que vagamente se destaca na
obscuridade do fundo. Electra adeanta-se para ella. Ficam as
duas figuras frente a frente, á menor distancia possivel uma da
outra.
_A Sombra_
Sou a tua mãe, e venho a aplacar a angustia do teu coração amante. A
minha voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum vinculo da natureza te
prende ao homem que te escolheu por mulher. O que te disseram foi uma
ficção carinhosa destinada a trazer-te á nossa companhia e á doçura
d’esta santa casa.
_Electra_
Oh! mãe adorada, que consolação me dás!
_A Sombra_
Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza e a esperança. Acceita, minha
filha, como provação em que se retemperou a força da tua alma, esta
reclusão transitoria, e não maldigas quem a promoveu... Se o amor
conjugal e as alegrias da familia solicitam a tua alma deixa-te de
boamente levar da suavidade d’essa atracção, e não procures aqui uma
santidade que não é para ti. Deus está em toda a parte... Eu não pude
encontral-o fóra d’este abençoado refugio... Procura-o tu no mundo por
vereda differente d’aquella em que eu me perdi... (_A sombra cala-se e
desapparece no momento em que se ouve a voz de Maximo_)
SCENA ULTIMA
ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA E SOROR DOROTHÊA
_Maximo_
(_á porta da esquerda_) Electra!
_Electra_
(_correndo para elle_) Ah!
_Pantoja_
(_pela direita_) Minha filha, onde estás?
_Marquez_
Comnôsco.
_Maximo_
Commigo.
_Pantoja_
Foges-me, Electra?
_Maximo_
Não foge... Resuscita.
FIM
*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA: DRAMA EM CINCO ACTOS ***
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